Ao invés de achar luz Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Segunda, 12 Agosto 2013 19:23

“Ao invés de achar luz

que céus inflame

somente achei

moléculas de lama.

E a mosca alegra da putrefação” Augusto dos Anjos

 

 

 

POEMAS DE UMA TARDE NÁUFRAGA

À BEIRA DO MONTE MAGANO

O CREPÚSCULO EM RISTE

A ALMA TRÊMULA.

Garanhuns, 2012

(o primeiro e o último poemas

incompletados no Castelo)

 

(As lágrimas de Lady Gaga são dadivosas.

Sua vulva eloquente. Solenes os seios).

 

DE HOLDERLIN

Estrelas caiam-lhe no rosto

do rosto brilhos pulsavam

como astro não distante.

 

Olhos fustigados por brasas

sois saindo de sua alma

 

a lucidez perfeita nele ancorava

(enquanto a longa loucura durasse).

 

Aos 40 anos de insânia poética

de Horderlin

 

(Por que Deus o inebriou (aos 32 anos)

o poeta da essência O ameaçava?)

 

 

Rosas do inverno

aquecem o coração

 

aquiesce o coração

a sombra do inverno.

 

Paira incomensurável abismo

o rosto

já perdeu as máscaras vivas

cântaro de náusea, torrente

de desatinadas palavras

a insensatez da vida

e o opróbio de ser

se oferecem a ti

(leitora drástica): não recuses.

 

ALEGRIA. ALEGRIA?

Alegrias terrenas

não são eternas

 

só alegre inverno

tem viço

 

só inferno fértil

canto

 

árido mata-me

sou como oásis

 

(a areia me louva

o vento aduna-me)

 

festa de pendões

espigas fartas

 

silêncio de argila

muro que nunca desmorone.

 

 

EU

Me ensimesmo

id a dentro naufrago

 

ir a esmo é ser

em si mesmo não ser

 

mas ser o mesmo e outro

eu sem sentido

 

esmo. Ermo.

 

“Si le monde etait claire, l’art

ne serais pas”. A. Camus

 

olhos são tentáculos de não ver.

O tempo escorre entre as mãos como água.

 

O tempo é de água.

As mãos são de água.

Toda alma é aquática.

 

Abandonar, perder

deixar-se embotar a palavra

ser noite renovada

noite rupestre, escandinava

buscar em cada perfeição

sua mácula, desdizer

de súbito a palavra

ser vazio como dia do homem.

 

Ao âmago nublado dedicar-se

devoradamente

a cada fetiche

dedicar um poema

o alumínio da palavra velar

a cada escura dúvida

negar-se

eis o viver.

Do cálice etéreo da primavera

colibri se embriaga

e o verão já assedia

sua sede.

 

Do tempo que o corpo consome

o que sabes (leitora inútil)?

 

Que a carne não tem trégua

que nas veias corre

férreo fulgor carmim

que os olhos pertencem à terra

ou que os sinos não batem em vão?

 

Desvanecer perante aridez

ou o que consuma todo sentir

 

em si mesmo ar ser

e ao sentido do passado dedicar

poema sem data ou nome.

 

Una-me tempo oblíquo

elo de risível hora e trêmula

alenta-me, torna-me

passado e futuro, livra-me

de ser cotidiano

a banalidade

adormece o espírito

(e a poesia).

 

Próximo fim

começo último

certeza não de si

mas do outro

extremos unos

na nu unção

do poema

(quando canta

a alta flor).

 

“A ética não trata do mundo (humano).

Ela é a condição (sine qua non) do mundo”.

Parodio Wittgenstein para falar sobre

o húmus noturno, partos de monturo e genealogias de alumínio.

 

Urdidura de céus sigilosos

catálises de nimbos

do teatro do ar títeres de algodão

(noivas ou nuvens?)

e arcabouços de açúcar etéreo.

 

Do urdume da palavra

ditame mais alto

voz que vença o caos.

 

(Após o poema hectares de suor

lavro do rosto).

 

À leitora qualquer: a poesia

explora o desvio entre

significado e significante

intenção e forma.

Olhe no mapa de Joyce

e veja o caminho de Dolly.

 

DO RECIFE O MAR

ORA A GARANHUNS

 

Poemas vindos de uma noite longa

do Castelo (a 1.080 metros

acima do nível do mar de Boa Viagem).

 

Ao jornalista e cronista

João Alberto.

 

11/2012

 

 

 

 

MAR VERDADEIRO

Ao mar que é morrer

 

Busco aconchego (e humana graça)

nas águas naturais

do marterno de Boa Viagem

 

das águas tépidas e sólidas

de Boa Viagem (de onde nasci).

 

Às águas lustrais do Pina

devo minha virginidade sem lavabo.

 

Às águas nada ásperas, puras

de São José, Santo Antônio

Santa Rita (e São Francisco)

onde o Beberibe se junta ao Capibaribe

para formar o Atlântico

devo meu rosto e alma.

 

Ao mar a desaparição do rosto.

 

POESIA DE SI

Sou o fim só o fim do começo?

 

A poesia de VCA cria sua própria

(e vária) forma. Rejeita fórmulas.

Únicas ou não.

 

Hermético (é vital) para quem tem fôlego

curto de imaginação. Rédea mole.

Ou é muito prático, detestando

qualquer abstração.

 

É poesia esquisita para quem chegue de perto

distante do sal.

 

É objeto vão (infinito) a poesia vital.

 

 

 

Dos fundos horizontes ascendem

músicas de ilhas antigas melodias

melodias náufragas ainda

de greda ocupam drásticas

fortalezas do ouvido

 

de fundos azuis vêm teus olhos

beber a morte dos meus e das rosas

 

doces extremos me empanaram a vida

gozos inúteis faliram o falo

 

negaram-me horizontes e mirras

agora cegas e sempre escuras (as rosas)

 

os mais ébrios lugares fugiram

ficou a sobriedade cansada do nadar

 

em forma de sombra ou barco

de esponjas negras e visões sem ventre.

 

O aroma das árvores

o meneio das nuvens

 

parecendo seios dispersos

sendo úberes brancos

garoas que os dedos amealham para o gozo

uma manhã pequena e selvagem

ainda se desmuda a meus olhos

 

lacrados mas lascivos

as bodas do sol são de lágrimas

 

o campo pequeno (e leve) da água (calma)

torna-se estrépito e tempestade lusa

 

das flores as pétalas parecem lágrimas

da lua a sombra já é náufraga (a luz pare buraco negro)

 

louco amuleto trago

do escombro da íris (para o azul branco da nuvem).

 

NAVE VAI, LUA VEM

 

A nave da lua singrava

no céu francês

 

e estava ébria com Rimbaud bebendo

das palavras licor alquímico exato

 

adornado de delírios legítimos (e francos)

mancomunado com o firmamento gaulês

 

enamorado do verbo navegava como um louco

por paragens de palavras nunca vistas

(por barcos embriagados)

incensos queimavam como pratas

moedas de colinas era sua alma

 

sábio cristal dedilhava, canções

para o espírito áureo encomendava a Deus

 

(porque o satã de Baudelaire

esgotara seu estoque de metáforas).

 

Teus olhos vêm da luz

vão à sombra

 

ver a tristeza

olhar escombros

 

ao umbral vazio

acodem dores solitárias

 

os lábios da alba

mordem o amanhecer

 

do profundo futuro vêm andorinhas

trajando gerúndios dos ninhos passados

 

e montanhas aladas

em suas asas de pedra ou lata

 

o imarcescível mar ainda murmura

desde sempre sou água e sal da sílaba.

 

POEMA

 

à rebelião do meu sangue ante

pálida presença da morte

 

Guardo das veias

a memória do sal sublevado

 

e os revérberos da treva

a luz pétrea das estrelas de argila

tudo da facínora terra

farmácia escura

não humilha meu olhar

 

nem o atro lampejo

que amealhe a cova

com seus brilhos sem ventre

não me ilude

nem desaprovo

 

(o que fui sou

serei sempre vital.

Ontem, hoje, amanhã, depois). 11/2012