CREPÚSCULO DE GARANHUNS Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Terça, 27 Agosto 2013 18:03

ÓTICO ALTO ESPETÁCULO

 

Do meu silo de silêncio

silêncio que é o cereal da alma

da cela (com cilício) do Mosteiro

do pote de solidão verde ébrio

e da beleza embriagado contemplo

 

 

sol por-se atrás da última colina

e famintas cores do mago poente

multiplicar-me olhos enlouquecendo

do ótico e ínclito espetáculo

do crepúsculo de Garanhuns

 

ante leva das hostes rústicas do ocaso hipnotizados

ante sólido, inevitável, incruento

e alto crepúsculo

luzes intricadas despedaçando-se

do teatro do céu de um azul vagaroso

a digladiar-se com rosas adormecendo

sob incrível sinfonia de cigarras (surdecedoras)

tecendo suas rascantes paletas arrancando

do piano amoroso da tarde eflúvios

e certezas da existência da alma.

 

Do paiol de solidão do Mosteiro

da janela do monacal jardim e selvagem

de todas as rosas convocadas

para brotar das asas da cidade

ao sal da penúltima claridade assisto

(derradeira matilha de brilhos evanescendo

meus olhos extasiados esbugalhando)

todos os gerúndios anunciados

todas as laudas excitadas

para desfile desta página do espírito

rumor baço das seis horas

(de luzes e anjos, do cântico do ângelus)

na asa pousado da libélula extraviada

cortejando um crisântemo

ainda acordado.

 

Engole o sol a colina

ruidoso crepúsculo fina

cores ficam escuras

parecem mortuárias

tudo se agrupa tudo se aninha

no colo da noite auspiciosa

da janela indissolúvel

de minha cela (com cilício)

diviso ainda dadivamente

cimo noturno

da folha da bananeira:

nela escrevo este poema.

 

(Solto como pássaro ou luz

do céu maior de Garanhuns)