DESSAVESSANDO O AVESSO Versão para impressão
Escrito por Administrator   
Terça, 20 Agosto 2013 12:53

BEZERRA DE LEMOS

“A crítica costuma não confundir a obra literária com seu autor. São dois elementos distintos, que se confirmam com a “Autopsicografia”, de Fernando Pessoa, e a “Filosofia da Composição”, de Edgard Allan Poe. Todavia se faz necessário associar a obra vitalina ao Vital, seu criador e, por extensão, compará-lo aos deuses do Olimpo, na Grécia, notadamente à Érebo, que se uniu com a noite para procriar. Esse deus é anterior à antiguidade: ele produz ou inspira invisível simpatia entre os seres. Aproxima, une, mistura, multiplica. É o deus da afinidade universal. Invencível. Nenhum ser pode furtar-se à sua influência ou ao seu poder. Esta é a descrição do amigo e poeta Vital Corrêa.

 

 

A teoria da prática revela, na evolução da obra vitalina, uma estranha e fascinante combinação de uma atitude e de temáticas vitalistas, dionísica (sem levar em consideração a temática do deus Príapo), com um abstracionismo formal que constitui, na formulação da sua própria poesia, o espinho do intelecto cravado numa predisposição imagística que se faz prática na poética sistematizada de Vital. Uma forte marca de sua poética é a concepção formal e verbal: o poema é a sua forma, seu conteúdo é da esfera do existencial, que podemos observar em DISCURSO CRESCENTE DE MIM:

“Hoje estou só sem vírgulas ou palavras súdita

estou acamado nas nuvens mucamas do poeta

nefelibatando infelizmente prenhe de imagens úmidas

à supefície da lua me ato ao rosto do amor

à beira mar de Vênus curvo-me

nada surge no meu auge fúlgido nada

me lembra a não-náusea de teu corpo – arte

que Sartre em Simone bela bebeu

uno-me ao fôlego lisbonense das sereias

meu ar ávido divido com épuras e coivaras da vida

ou inertes corações de cedro dinamarquês ergo

às canadenses miragens do meu velho empório de sonho

que alto professor de poesia alicerçou de palavras sublimes”.

 

O poema, no seu Discurso Crescente, trabalha com dois eixos, que centram-se no poeta enquanto ser agregado à sociedade e numa forte relação hermenêutica, onde o poeta se debate entre  o real e o imaginário, através do sonho, todavia, só encontra esse real nos intervalos do sonho (no seu nefelibatismo), que o leva a Sartre e a Simone na sua náusea do Tempo Perdido, que fez encontrar a psicanálise de Sebastian Joachim, no existencialismo de Jean Paul Sartre.

A poesia de Vital, também doa fogo, a Páris e atinge Helenas na Hipnose de Afrodite, em plena “Quarta, às Quatro”, sem Menelau a Procurá-lo, pois a Tróia não esta em guerra: faz parte dos intervalos do sonho, este é o seu real. Todavia, como um René Maria Rilke, na Canção do Porta Estandarte, ele prossegue arrancando o coração das palavras e doando (como um tira-gosto acre de vinho) às viúvas do Olimpo, que embriagam-se, apenas, com as semias do fogo que arde no útero das palavras:

“[ainda]

Aos alabastrinos ângulos do sal

Às fecundas mucosas das vaginas

A maciez dos lábios virginais

Ao hipnótico olho da papula

Ao pólen no coração dos cadinhos

Às cimitarras de aço sumério

Às facínoras curvas da foice

Aos feéricos vagalhões das lágrimas

Aos púbis transcendentais

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Este é um poema para os não habituados

Para os habituados, não é um poema”

 

 

O poeta Vital buscou as veredas dos deuses, a fim de nos oferecer a semiologia das palavras, que se encontram do outro lado da margem, nos oferecendo e mapeando os limites da diacronia e sincronia (“langue” e “parole”), sintagma e paradigma, e compreender que o signo só significa na dependência da linguagem, embora ausente do texto motiva a sua estruturação, através da metonímia:

 

SEIOS

“Rijos deuses redondos

para o culto alpino do lábio

canções de carne

que mordem a boca

e encantam

a alma da mão.”

Neste poema, as metáforas misturadas a todos os casos da metonímia, se transpõem e leva o sujeito ao reino do onanismo universal / “e encantam / a alma da mão/, enquanto sacerdote do / culto alpino do lábio” /. O poeta se doa ao imaginário, através do sonho e do SIM-bólico.”

A poética de Vital nasce e cresce, a partir do líquen das palavras e se espalha aos ventos zéfiros engravidando o tempo poético do poema (como as éguas iberas) em Machado de Assis, que engravidavam pelo vento, através da luta com as palavras. Sua obra poética vincula-se a um martelo quebrando as pedras dos vocábulos, a fim de criar um poema novo repleto de futuros, que

 

 

UM POETA DE INTERVENÇÃO

Maria de Lourdes Hortas

Burocracial (poesia)

Vital Corrêa de Araújo

Edições Pirata, Recife/ 1982

 

“Embora apodreça/ no estoque estúpido/ do supermercado/ a poesia está em falta/ mas viaja”. Quem diz isto é Vital Corrêa de Araújo, no livro Burocracial, recentemente lançado pelas Edições Pirata, e que acabo de ler.

Mário Quintana, quando esteve em Recife em novembro de 81, para a Semana Joaquim Cardoso, disse uma frase que arquivei, por responder ao pânico de muitos críticos sobre a quantidade de poesia ultimamente publicada em todo o Brasil: “Acho ótimo publicar-se tantos poetas. Porque embora noventa por cento dessa poesia não se salve, dez por cento é boa. E é bom haver milhares de Chiquinhas da Silva para acontecer, de repente, uma Cecília Meireles”.

Agora, reencontrando a poesia do autor de “Título Provisório” (publicado pela Fundação José Augusto, de Natal, em 1977), vou buscar a frase de Quintana, adaptando-a à circunstância, para dizer: acho ÓTIMO PUBLICAREM-SE MILHARES E MILHARES DE Fulanos DA Silva, para de repente aparecer um Vital Corrêa de Araújo.

Trata-se, sem dúvida, de uma voz de timbre novo – clarim acordando o leitor, que boceja diante de tantos livros que se pretendem ser de poesia, mas que não passam, na maioria das vezes, de antologias de lugares-comuns, vistos, revistos, gastos, cansados.

De grande unidade e harmonia, quer na temática, quer na linguagem, este livro não é mais um entre os muitos conjuntos de versos de lirismo balofo, onde os autores se põem a contar, em formas mal alinhavadas, as mal traçadas linhas de suas vidas. Ao invés disso, Burocracial é um livro consistente, onde forma e conteúdo se entrelaçam, alcançando um elevado compromisso com a arte. E, como arte que é, não está fadado a apodrecer “no estoque estúpido; do supermercado”, porque vem suprir essa carência de verdadeira poesia de que tantos se queixam. V.C.A. não esta apenas de viagem, passando pelos mares da vida e da poesia como um turista distraído ou diletante. Veio para ancorar, denunciar, intervir.”

“Publicado no Diário de Pernambuco”

 

 

LUDISMO

TRANSCENDENTE

Hildeberto Barbosa Filho

 

 

“Vital é daqueles que bifurcam seus caminhos estéticos, sem perder, contudo, a unidade subjacente que trama, em recorrência paradigmática, seu gesto criador. Diria que esta unidade de concepção, contemplando o plano das idéias e dos motivos variados que atravessam os territórios de sua poesia, incide também nos artefatos estilísticos, em cuja clareira iluminada, despontam, por um lado, o rigor da construção contido, quase condensare, e, por outro, a alogicidade visionária de fundações metafóricas radicais. Para me valer da tópica grega, recuperada por Nietzsche em ângulo estético-filosófico, vejo em Vital Corrêa de Araújo uma espécie de soma a fundir Apolo e Dionísio, naquilo que estes mitos podem representar, em termos de linguagem, o arrebatamento órfico e a simetria arquitetônica.

O poema “À”, na verdade uma dedicatória translógica que reverbera no texto “Só as paredes confesso” dá bem a medida do anárquico demiúrgico e da atmosfera dionisíaca em seu espraiamento metafórico surpreendente, assim como poemas, a exemplo de “Batalha branca”, “Hoje”, “O especialista” e “Morrer”, entre tantos, parecem caracterizar perfeitamente a linhagem apolínea dessa poesia consolidada.

Imagens expressivas, fertilizadoras do processo intuitivo de capturação das inomináveis latitudes do real, ao mesmo tempo que instauram uma nova semântica para o idioma, se materializam em versos assim: “(...) à brancura  das almas cruéis (...) às pastosas geometrias da morte (...) à lembrança das melodias estraçalhadas/ pelas lâminas das horas passadas/ nas alameadas do teu rosto”. E mais, muito mais, no vertebrado poema da página 36 a 42, de que destaco, para efeito comprobatório, os seguintes versos: “(...) às abelhas hermenêuticas/ às baunilhas metonímicas (...) à hipermetropia dos rinocerantes (...) ao hipnótico olho da papoula (...) às cimitarras de aço sumério/às facínoras curvas da foice (...) à tenda do equinócio (...) Aos eruditos torsos de Apolo (...) à rótula de Foucault”, e, entre tantos achados de índole surreal e expressionista, esta bela sucessão:

 

às ondas cônicas / às capelas

hípicas

aos hinos púnicos; aos sinos

ímpios

aos humos côncavos / aos

cantos únicos

aos corvos cínicos / às túnicas

pânicas / aos hunos cínicos.”

 

“A matriz antológica que disciplina a tarefa seletiva, numa coletânea como esta, parece definir, em fase de madureza criativa, os ângulos nucleares de um itinerário poético singular. O peso da metáfora, também as sinalado pela exegese de um Sébastien Joachim, naquilo que o tropo pode trair de estranho, de enigmático, de impensável e de impossível, não só eleva as categorias expressivas da língua e da linguagem, mas também colabora, e colabora de maneira seminal, para a densidade significativa dos conteúdos temáticos e ideativos que configuram matéria de poesia”.

“Ângelo Monteiro, poeta-crítico, em síntese conclusiva, também se associa ao meu pensamento, ao ressaltar que “Vital Corrêa de Araújo, como poeta culto, que não nega o espontâneo, demonstra alta maturidade em relação à linguagem sem perder a capacidade adolescente de sonhar o mundo”. Verdade inconteste: a cultura do autor, manifesta em requisitos típicos de quem domina as técnicas e os conceitos da criação literária, não elide, por sua vez, as ressonâncias da hubris, isto é, a desmedida, a fonte do delírio, os espantos  do devaneio que, segundo Gaston Bachelard, desencadeia o fluxo das imagens mais amadas.”

 

Publicado na Revista Encontro.

 

HERMETISMO VITAL

Cláudio Veras

 

Na fruição da obra poética há um óbice considerável constituído pela atuação de uma força que leva a percepção atual do presumido leitor ao passado, ou seja, a uma situação de imobilismo (que se confunde com tradição, cuja permanência autoritária afeta o futuro estético).

Os modelos não são atualizados em face da força da inércia que paralisa a forma e vulgariza o conteúdo da obra: a estatura diacrônica é pigmenizada pela corrosiva ação sincrônica.

A arte é tida como algo já concluído, estabelecido no passado, e o presente de toda arte é supérfluo. Qualquer inovação equivale a desvalorizar o passado, profaná-lo, e atentar contra o que já foi alcançado – e está consolidado em arte. Para os arraigados cultores do passadismo poético, a arte do presente é estranha. Algo eteízada. Pararreal.

Outros critério dualista (quase mesmo maniqueísta) é o que empluma o prédio clareza versus obscuridade (que são conceitos relativos, pois só se é claro ou obscuro, para alguém, para um público determinado por suas competências literárias) e em si, mas percepções, fatos psicológicos,  deduções. Não são ações, são efeitos.

A obscuridade que chancela a arte moderna (poesia, pintura, música, cinema e o romance experimental – musical, Joyce, Alberto Lins Caldas, Guimarães Rosa, Osman Lins), por largo tempo, não dizia respeito ao mérito da obra mas concernia ao julgamento negativo do público, viciado em consumo fácil, e da critica dita acadêmica, apta a consenso raquítico.

Os poetas modernos não mais se comunicam com a maior parte da classe geral dos fazedores de verso.

A obscuridade resulta de uma comunicação interrompida. Ou inapropriada. Com o passado. Mas não é algo ainda suspenso no passado.

Essa abordagem tem como alvo o trabalho poético de Vital Corrêa de Araújo.

A V.C.A, como poeta, aplicar-se-iam facilmente as epígrafes.

“Há certa glória eu não ser (bem) compreendido”, dispara Baudelaire.

Fazer poesia, para G. Benn, equivale a elevar as coisas à linguagem do incompreensível.

“Poeta ambíguo entre coisas duplamente agudas, aspeleja isto ou elabora entre tudo aquilo que luta pelo presente com a completa perspectiva do futuro”. S. J. Perse.

“Ninguém escreveria versos se o problema da poesia fosse fazer-se entender, fosse ser compreensiva amiga”, diz Montale

Porque na poesia moderna há algo que força a linguagem poética num sentido que se distancia do âmbito da comunicação social normal, a pecha hermética é aplicada (e somente pelos ingênuos leitores).