INEXPLICAÇÃO AO LEITOR Versão para impressão
Escrito por Administrator   

Comecei a costurar essas palavras prolegomênicas no banho. Enquanto me ensaboava, a mente (limpa) desandou pensamentos (impublicáveis, porque nus),

e sinapses ou insaites e reflexões relâmpagas atravessavam o fluxo dos chuviscos.

 

Completei-as quando usava no raro cabelo o novo shampu que promete longevidade a cada fio em particular. (Como os possuo poucos, o produto francês invencível, mesmo sendo caro, per cápita sai bem em conta). E enquanto alisava as madeixas carinhosamente pensando em Pope – com esfregões macios – já findava quase esse cru proêmio. Surpresa foi não esquecer o texto vindo à luz do banheiro para meu caderno mental úmido.

TÍTULO

Pensei em Frases da Lua, Monósticos de Carbono (por ser a maioria das peças de um só verso ou linha ou como disse Eliot: “one verse poem”), mas optei por Bando de Mônadas, não sei por quê.

NÓMINA DESSAS NOTAS

Ao conjunto, nomino-as nuamente Inexplicação ao leitor, e dedico à Hipócrita Leitora de minha parca ou pobre obra.

Porque são notas inexplícitas de um fazedor de poemas, que visam atordoar, ou melhor, clarear a treva textual, abrir caminhos sem rumo à selva significante, em que possíveis (mas improváveis) leitores se arrisquem tentar imiscuir-se ou inutilmente explorar.

RAZÃO DO POEMA

Escrevi esses poemas extremos porque vi o extremo numa viagem a bordo do abismo para o confim de mim mesmo. Fui além da alma, depois do corpo, quando os comecei. Não evitei os tiques estilísticos próprios de minha lavra poética nem a mania de montar sintagmas oximóricos, insensatos (para os sentidos comuns), esdrúxulos, não recomendáveis, para quem escreve em benefício do leitor, o que não é meu caso, absolutamente.

Escrevo poema para total desconforto do leitor (que se dane se quiser entender ou rale).

Se o poeta entrega de mão beijada, numa bandeja dourada, o tal sentido do poema (tão ou mais procurado do que um malfeitor do velho oeste ianque), tão esperado que desespera o leitor, quando este não lhe é dado, de imediato, na primeira linha  ou golpe  de leitura; caso seja assim, assado não é, e poesia não o é também. O poema não deve ser uma resposta, uma lição, mas um questionamento, uma interrogação. Nada de resultados prosaicos, mas investimento literário.

Escrevo poemas, portanto, para o desconforto extremo de quem casualmente me leia. Se fosse uma reforma de um prédio, a placa séria seria: desculpe o transtorno da leitura, estamos trabalhando para desconforto total do seu entendimento.

VITAL QUER DERRUBAR O SIGNIFICADO

O professor Sébastien Joachim, no livro O Destino Poético de Vital Corrêa de Araujo – Editores Bagaço / Instituto Maximiano Campos – 2009 – disse bem dito que o meu objetivo poético é derrubar o significado. Magister dixit.

IDE À FONTE

Seria o meu coração de areia (título de uma coleção de poemas já publicada – FUNDARPE)?

Nunca se sabe o que há no coração, do que ele é capaz (ou incapaz). Então, por que confiar nele?

Os impulsos do coração são frágeis e insinceros. Fortes, consequentes, verdadeiros são os impulsos do desejo, como bem o mestre Jomard já provou.

E os usei bem. Esses poemas são frutos do desejo, e da pena ou da pele (e não da alma).

O equilíbrio está muito além da palavra que o quite (ou sagre).

O fio do êxito fácil cortei, parca velha e sábia.

Do espaço débil e das janelas vertiginosas do sonho me despenhei, atirando-me aos intricados hospícios azuis das palavras, precipitando em mim os precipícios de sintagmas vertiginosos e devoradores como o Desejo.

Para satisfazer os mais turvos desses desejos fui até o poema.

E esse Bando de Mônadas solto ao mundo.