SOBRE POESIA OU VASOS CEGOS Versão para impressão
Escrito por Administrator   

A questão crucial da impessoalidade da poesia, tanto ressaltada por T.S. Eliot (prêmio nobel pela obra poética),

e que torna a poesia pouco romântica – ou antirromântica, é uma realidade. Pois as impressões e experiências de vida (banal ou não), que são importantes para as pessoas podem não ter lugar na poesia (dixit Eliot).

 

Ou seja, o sentimento, a emoção ou a visão resultantes do poema são diferentes (e muito) do sentimento, emoção ou visão no espírito do poeta estacionados.

De certo modo, a poesia é uma secreção mental meio inconsciente do supercérebro – ou do poeta em tal estado de êxtase neuronial. O que pode ser nada romântico, mas é verdadeiro e científico.

Para Eliot e Pound (que reduziu o livro Waste Land de Eliot à metade, numa furiosa e idítica correção – e levou Eliot ao nobel), a metáfora é a essência da poesia. É bom ler A metáfora, de Borges, para idear o poder dela, desta dama da linguagem.

Sei que a complexidade do texto poético VCA impugnaram os êxitos, mas é a sina VCA, o destino do verbo. Das coisas heterodoxas, ímpias imagens, teias delirantes, surto de ambiguidades, paradoxos inverossímeis e assimetrias brutais de palavra é farto o texto vital. E é isso aí. Pior não será. NTD: não tenho dito. E dane-se leitor fácil.

Um certo grau de heterogeineidade (pois tudo o que é homogêneo é superficial) do texto compele à unidade do poema (ou do livro), porque a ação do espírito do poeta é soberana, onipotente e omnipresente (veja; não é onipresente).

Essa omnipresencialidade (conf Eliot) é o fator primário da unidade de um livro de poemas. Não é tema, assunto, forma e cia.

Viva a incongruência (ou incongruidade) que eleva o poema. A prosaicidade é o perigo que ronda poeta – em especial, os que se ungem à sombra do prosaico, decididamente. Desate o nó da facilidade – que é forte, e o da incomplexidade ate - não tema ser difícil, seja poeta. Metáfora não é flor que se cheire, é rosa imperfumada e essencial. Sem ela poema desaba como chuva de verão.

A linguagem figurativa – a da poesia, deve ser a mais enérgica possível, ousada até às raias do inconsequente. A compreensão indireta do poema é efeito da metáfora. E o poema insensato nunca é banal.

“Quando o espírito do poeta esteja perfeitamente equipado para o poema, tal poeta estará interruptamente a amalgamar experiências díspares – a usar palavras contrárias”. (T.S. Eliot, em má tradução de VCA).

A poesia quanto menos séria (e aparentemente caótica) mais séria e organizada. Ver VCA.

Findo essa incursão a Eliot (com o auxílio de escorços obtidos de velhas notas de 2005), com a citação clássica.

“A única maneira de exprimir emoção (leia-se sentimento também – VCA) sob forma de arte é encontrando um correlativo objetivo; por outras palavras, uma série de objetos, uma situação, uma cadeia de acontecimentos que serão a fórmula (o caminho e a forma – VCA) dessa emoção particular; tais que, quando os fatos externos que devam resultar em experiências sensoriais forem dados (se presenciarem – VCA), a emoção seja de imediato evocada”.

O que se exalça disso é: como o poeta não pode transferir sua emoção diretamente ao leitor, existe uma espécie de mediação: o correlativo objetivo (que é uma ação poética). “Uma série de objetivos, uma situação, uma cadeia de acontecimentos”, elos, desate, amálgama, unção, tudo que obvie a transação entre autor e leitor. O que o autor quis dizer e a forma em que o fez.

A doutrina da correlação objetiva tem muito a ver com Mallarmé.

Os simbolistas franceses afirmavam que a poesia não pode (nem deve) exprimir diretamente a emoção (ou seja, o sentimento talvez). A emoção só pode ser evocada.

Baudelaire, com a teoria das correspondências das emoções com cores, sons, cheiros, e Mallarmé, insistindo (e consistente) em que a poesia é feita, não de ideias, mas de palavras, dedicaram-se a caprichar na potencialidade profunda do verbo (que é de barro).

Nomear um objeto (dixit Mallarmé) significa destruir três quartas partes do prazer de sua evocação no texto poético absoluto.

A impossibilidade absoluta de qualquer leitor sentir a mesma emoção do poeta reside em que não há razão para tal.

Pois um poema exprime muito menos do que a possível emoção sentida pelo poeta. Uma é psicológica, outra literária. Campos distintos, formas opostas, sem comunicação. Vasos cegos.

Quanto menos poeta por (ou poer) no poema algo para provocar emoção, melhor. Pois, poesia não se faz com sentimentos. Nem com ideias. Muito menos com emoções particulares, pessoais. A poesia do poeta não deve ter nada a ver com a do autor. Poesia não é nada pessoal. Muito pelo contrário: é impessoal até a medula.

Poeta de alma seca é melhor. A melhor poesia daí advém.

Daí, chamar Eliot à colação final. “A poesia não é dar rédea solta (panos quentes) à emoção... não é expressão da personalidade (mas do id alterado), porém fuga da personalidade”. De um prêmio nobel pela obra poética. (Menções entre parêntese de VCA).

Eliot nunca aderiu à ideia de que seja tarefa mor do poeta dar a leitor satisfação, em forma de um conteúdo (ou mensagem) quer seja ideia ou emoção – e que a eficácia do poema seja medida pelo sucesso dessa transação (ou transmissão). A posição de Eliot foi antitética (dessas teses). Poesia antirromântica (como deve ser hoje) e impessoal, via textos vivos e novos, caracterizados por alta complexidade e vívida indeterminação – ou inacabamento completo.

Embora encontrar equivalentes verbais para estados de espírito e sentimento seja papel específico do homem (em linguagem falada e escrita, em prosa e poesia e comunicação em geral), tal em poesia é complexo.