O POEMA VITAL Versão para impressão
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VITAL CORRÊA DE ARAÚJO É COMPLETAMENTE LOUCO

Alberto Lins Caldas

Poesia não é música, harmonia ou melodia, – não é canção, não é ritmo, cadência ou compasso, – não é tradição, não é costume, – não é língua nem linguagem, – não é “linguagem condensada”, – não é a poundiana “linguagem carregada de significado até o máximo possível”, – mas aquilo q mente, logra, engana, ilude, ofusca se mostrando como linguagem, – y por isso não é nada, não pode ser nada, não quer ser nada, nada significa – lutando por essa radical insignificância, por essa mentira radical: poesia é essa monstruosidade q não suporta absolutamente nada, nada carrega, nada aponta, nada comunica, – aquilo q transparencializa signos, formas, idéias, conceitos, figuras, imagens, emoções: – pra nada, por nada, com nada: – poesia é aquilo q não diz, q não quer dizer, q não dirá, q nada força a dizer, q é contra o dizer, – y não conta, não reproduz, não pinta, não pensa, não comunga, não participa, – mas o q abre a visão, o q vive y faz respirar repentinamente numa estranha brecha, – o q escancara o corpo, as vísceras, a intuição, o paladar, – o antes y o depois da consciência, – poesia não é pra consciência, mas pro corpo, o dentro do corpo, aquilo q pode sentir y lutar contra as raízes, as folhas, os gordos galhos do horror, as palavras do horror, a vegetativa y monstruosa forma de vida do horror: o exato oposto ao quantum de silêncio da linguagem.

o horror, – essa coisa perversa q envolve todos, q invade, direciona, sufoca, formata, deforma, machuca y faz ferir, – as malhas da virtualidade social tecidas pra produzir y reproduzir, – q parece “vida normal”, mas são redes sociais y pessoais monstruosas. enfrentar o horror é uma das últimas “missões” da literatura, da poesia, da arte. o libertino enquanto poeta é aquele q luta contra o horror impondo sua vida como obstrução real à essa proliferação doentia: – a poesia é obstrução ou não é poesia: o insignificante “múltiplo” contra o significado.

poesia não é o q se interpõe entre mim y as coisas, entre mim y as sensações, mas aquilo q não impede esse contato: y pra isso é preciso não dizer, não significar, não impor nem se impor, não fazer o jogo das frases feitas, das formas feitas, dos clichês de todas as falas y todas as escritas [sem esse jogo ridículo do mesmo não há a comunicação, o quantum de silêncio: – a poesia não pode jamais fazer parte disso q chamam “escrever bem”, coisa de jornalistas, cronistas y “escritores de província”: a poesia não é “comunicação”, não é “crônica poética” como toda a obra de carlos drummond de andrade y praticamente toda a “poesia ibérica” y brasileira].

a poesia usa a palavra como “coisa morta”, como “fetiche”, como “múmia”, como obrigatoriedade inescapável, mas contornável: usa a palavra contra a palavra, essa máscara de não dizer escondendo q não diz: – a poesia não diz pra dizer duma maneira q somente ela pode: a poesia não mente sua mentira, não mente q mente: somente essa mentira pode ser “além da verdade”, essa deformação cancerosa das palavras, essa mentira delirante.

a poesia é o q dissolve as perversas malhas de conceitos, formas, fórmulas, modelos q foram se impondo como mediadoras das relações vitais, com a pluralidade, com os fluxos, com a negatividade, com a vida adoecida: – a poesia fica diretamente diante da vida, dentro da vida atraindo os infinitos fragmentos perversos do horror: desadoecendo a vida.

a poesia é o q nega y não é a escrita sociodemonazifascistacristão (o específico luzo-nazismo, o nazi-brasileirismo) q sempre foi a chamada Literatura brasileira (o melhor exemplo do quanto de silêncio, ou a q extremos patéticos esse quantum pode ir): – a Literatura da palavra, da palavra em concordância, da comunicação, da fabulação, de tudo em anuência, em confabulação, em conchavo, em acordo: a Literatura dos letrados, a oligarquia das letras, dos “homens bons”, dos bens posicionados, a boa gente; Literatura da fazenda, da terra y da fábrica, dos donos y dos cães dos donos, dos brancos católicos, dos gramáticos, dos “cães de guarda das letras”, dos cães de guarda da nação, das leis, dos exércitos, das igrejas, dos estados, dos governos, da paz social; – a Literatura dos q podem dizer, dos q podem impedir de dizer y impedem, dos q sabem o q deve ser dito y da maneira q deve ser dito: – y dizem y só dizem assim, fazendo com q todos digam também assim, y amém [o quantum de silêncio é uma torrente monstruosa de poder coisificante y integrador].

a poesia é o q recusa, repele, nega, mergulha y fala de dentro das dobras contra as dobras – y veemente é o contrário daquilo q no brasil se costuma chamar de poesia, de poema, de escrita poética, de Literatura.

poesia é feita pela carne, coisa de libertino, de obsceno [toda poesia é obscena, porno-gráfica] – coisa não-coisa contra a carne por dentro do fora articulando tendões; pelo ódio contra o ódio; pela indignação; contra a Política, contra a História, contra as sociologias, contra o povo, contra as raças, contra as manadas, contra o mundo-médio, contra a “idade mídia”, contra as geografias; imposta y indisposta pelo não y pela negatividade, por tudo aquilo q enfrenta o horror, – jamais essa coisinha bem comportada, bem pensante, bem sensível, bem ordeira, coisinha bem papai-mamãe sob lençóis regionais ou nacionais, – bem-dita, rimadinha na medida, bem explicativa, substituta da masturbaçãozinhazinha, da adolescência interminável, das velhices sem pudor, dos minúsculos narcisismos, do voeirismo, das pedofilias, das necrofilias de shopingcenteres y mídias, – das tantas vaidades, das cartas, das crônicas, dos artigos, dos jornais y revistas, dos chistes y das piadas, – y q tão bem se dá com todos os “podres poderes” do estado, com todas as oligarquias, palácios, secretarias, repartições, com todas as políticas y políticos, repúblicas, democracias, impérios, ditaduras, – com todas as tradições populares de submissão y impotência em se superar: aquele povo q pode apenas fazer palhaçadas pro riso das plateias quando não é mantido bem longe por feder; – y todas as tradições letradas y cultas, eruditas y universitárias da alienação y das ideologias.

y vital corrêa de araújo sabe tudo isso y muito, y muito mais: - sabe, sente, pressente y se ressente de tudo isso: - mas o mais importante é q a poesia q recebe o “copyright”, o “sinete”, a “marca” a “autoria” – “vital” corrêa de araújo” – sabe profundamente isso, y sabendo se tornou mais do q essa coisinha q chamam y berram ser poesia: - numa literatura q jamais teve um isidore ducase ou um paul celan por pura covardia nacionalista (a Literatura é a pátria em chuteiras); - y se propagam como ratos produzindo poemas como pragas de gafanhotos, todos inúteis, todos tudo – menos poesia.

mas a poesia de “vital corrêa de araújo” não soube sempre o q foi sabendo y fazendo “ver”, ela, q é somente uma visão, um nada de ser: ela q é uma travessia, um link exemplar para o além da consciência y das deformações das palavras enquanto razão y técnica.

a poesia “vital”, - essa poesia de vital corrêa de araújo q se tornou vital, - não “encena a morte do poeta e da poesia em um mundo dominado pela tecnologia” como já disseram, - nem se faz perguntas ou responde nada, - ela é a passagem do texto q quer ser poesia, poesia q enquanto poesia não fala de poemas, de literatura, do cotidiano y das palavras, nada diz a mim ou a você, não fala de significados nem de significantes, daquilo q é feito pela consciência y para a consciência, pela técnica, pela tradição, - nada sobre nada, - passagem do nada pro nada: - poesia: - o nada q enfrenta o horror.

a poesia “vital” não pensa, não conduz pensamento, não transmite conhecimento: ela abre o olho-víscera contra o horror.

vital corrêa de araújo vai do “texto-poema” (esse q ainda não sabe sua força vital), nos primeiros livros, - ao “poema”, à poesia, - sem passar pelas crônicas-poemas q infestam como moscas varejeiras mineiros, cariocas y poetastros de toda esquina: - sem passar pelos poeminhas de bêbedos bairristas de bossas novas; - sem passar pelos poemas populares-eruditos das regionalidades inócuas; sem acompanhar as multidões de poetas pelas ruas de lama; - sem passar pelos poeminhas secos y molhados de sevilhanos sempre bem de vida com as oligarquias, mas q tão bem sabia do tom pastoso y meloso dessa “poesia de funcionário público”, de comerciário e bancários.

a poesia vital não é uma poesia para teorias: - ela não só é impregnada de corpo y liberdade, ela é singular pra singularidade: - não se diz, não diz pra manada, não representa nada em sua sutil respiração q denuncia o horror dentro do horror.

a poesia “vital corrêa de araújo” não faz sentido nem quer fazer mais sentido. ela não é uma filosofia, uma ciência, uma teologia, uma mitologia, - não é um desabafo: ela não diz mais o ser, o dizer, o viver: ela não rima, não prima mais.

essa poesia “vital” é uma outra respiração, - a luta encarniçada por essa outra respiração: porq a poesia é uma maneira radical, negativa, profunda, diferente – de respiração: - ela respira em outro mundo: - q não é o da visibilidade, o das palavras, das ideias, dos costumes (onde se protege o horror, onde se reproduz o horror, onde se acaricia o horror), - mas aquele onde vibra o horror, o horror q ela aponta - perdendo a respiração, respirando diferente, chamando a atenção com essa res-piração, porq essa respiração é pura loucura: - ou a poesia é louca ou não é nada: - vital corrêa de araújo é completamente louco, - porq tem se tornado um poeta, um poeta vital, - tem conseguido superar o sufoco das palavras, - a algaravia cruel q se apresenta como sentido, - a cabeça sangrenta de todas as medusas ao nosso redor, pondo em seu lugar essa denúncia vital q é a poesia contra o horror.

obrigado a todos e todas e ao poeta VCA por ser louco completo.

 

ALC é prof. de literatura e crítico de alto coturno. Perito em história oral, escreveu dezenas de livros a respeito, pode-se-dizer o mestre brasileiro da história oral. E publicou 7 ou 8 volumes de crítica literária impiedosa e genial. Fundou vária revista de literatura. É prof. de literatura, arqueólogo, historiador. (+ muito + louco de que eu; VCA). De Gravatá, filho do historiador Alberto Frederico Lins Caldas. Amigo de muitas loucuras e datas. Proautor do HORROR como literatura. Foi e é Professor de Literatura de várias universidades federais.