POETA HERMÉTICO, E DAÍ? Versão para impressão
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Cláudio Veras
Há décadas persigo a trajetória de Vital Corrêa de Araújo, em especial, no rastro dos livros Só às Paredes Confesso e Palpo a Quimera e o Tremor,

além de parte de Simulacro seguido de Escuras, cujos originais pertencem ao Professor Sébastien  Joachim. Também compulso Atanor e O Sal contempla o Atlântico, além deste e de Estou.

 

Há um veio profundo que leva ao hermetismo estético da poesia de VCA. De extração italiana e grega. (Greco-romana?).

Ungaretti, Montale e Quasímodo. A tríade que Vital sequestrou. (Foi exatamente isso e mais o mergulho dele em Pound, Michaux, Séferis, Elithis, Eliot, Aleixandre, Guillén que me provocaram a aproximação desse poeta, para mim – bem como para Joachim e Cesár Leal – ímpar).

O bendito hermetismo italiano do século XX tem raízes francesas: Rimbaud, Mallarmé, Valéry, outra tríade de que Vital se abebera sempre.

Ao esgotamento das fontes e ao enfraquecimento das correntes do fim do século XIX deveram-se o ímpeto e a força da poesia hermética (na França, chamada pura, surrealismo, etc.).

Os apodos: fútil, gratuita, antihumana, diletante e incapaz de expressão choveram sobre ela. Relação oculta, mistificação da palavra. Em síntese – e é o que interessa – todos os grandes poetas italianos do século XX foram herméticos. E Vital bebeu-os até a exaustão de todos os sentidos. São poetas que assustam a face do universo. Criam a categoria do assombro, de que fala o expoente da crítica pós-moderna, que é Sébastien Joachim.

Como Ungaretti, VCA expulsa do poema todos os resíduos não poéticos, todas as vírgulas e conectivos inúteis, todos os nexos sintáticos desnecessários, e o texto resultante – como inacabado ou aparentemente incompleto – mostra “defeito” lógico pois falta o ar das palavras (asma discursiva), e... a revelação oculta, o fragmentário tornam a expressão difícil (e a incompreensão aguilhoa o pobre leitor).

O “M’illumino d’immenso”, de Ungaretti, ante o mar e o céu, é paradigma.

O hermetismo poético de Montale difere do de Ungaretti (eliminação de todos os restos e resíduos da não poesia). Nele, a poesia deve ser deliberadamente impura, eivada de coloquialismo, mesclada de elementos não-poéticos. Mas tão hermeticamente expressa como que o poeta se desesperasse fatalisticamente de ser compreendido. Ou como se dissesse: faço poesia para entender-me, não para ser entendido. Osso de sépia é o Waste land italiano. O que Valéry foi para Ungaretti, é para Montale a influência incontestável de T.S. Eliot, ensina Carpeaux.

A atitude poética de Eugenio Montale (prêmio Nobel) é a contemplação violenta do mundo para verificar que ele existe (chegar à sua verdade).

A poesia de Salvatore Quasímodo (também Nobel) é a mais hermética e a mais exuberante, a mais irreveladora e a mais sublime de todas. Oboé submerso, que adeja o dia. Ou É e súbito será.

Mas é o poeta da noite porosa e penetrável (que S. Joachim descobre em Vital) que molda a poesia vitalina, objeto punçante do inconsciente leitor. Como em Gravitação e Força Inocente, que li, via Vital. Supervielle, Jules.

Sébastien Joachim, no livro O Destino Poético de Vital Corrêa de Araújo (edições Bagaço/Instituto Maximiano Campos – 2009) promove um estudo amplo e preciso dessa poderosa poética, que César Leal, através de três textos (duas resenhas e uma abordagem quanto ao hermetismo vital) decreta ser quem melhor domina o verso livre na atualidade.

Acredito que o poemário Atanor, inédito, seja o livro de poema por excelência, mas estes dois, Ora pro nobis scania vabis e Estou, bem como Crepúsculo do pênis, Verbo de barro, Mônadas, Confissões e Borges e Eugénio, superam os anteriores. O que não é de admirar, pois a obra de Vital é de valor crescente, desde Título Provisório.