SILÊNCIO: CONTEMPLE Versão para impressão
Escrito por Administrator   

Gosto de contemplar o silêncio. Adoro quando ele me dá bolas. O silêncio só é masculino gramaticalmente. Gozo com o silêncio.

É meio maluco isso, mas é verdadeiro. Ele é perfeito, tem curvas, nada suaves, é algo lúbrico até, é felino e indomável o silêncio. Não me desprego por horas de seu fascínio ensurdecedor e apto, de sua deliquescência lenta, de seu ardor escuro e fêmea pertinácia. O silêncio é meu sentido extra, porque o sinto na carne, no ombro, no olhar, no rosto, na pele e no falo, na cama e no tédio.

 

O silêncio é insolente às vezes, suas nuances lascivas e sua nudez furiosa me desarmam, me consomem, de certa forma me estrupam. E eu não sou tão virgem assim no âmbito do grito e na paciência de ser. Perguntem a Gilberto Freyre.

O silêncio é meu amigo velho, com ele completo a maioria das horas de um dia.

Eu ou o silêncio. Cerca de 17 horas diárias, ganho por conviver com o silêncio. Como escrevo à mão, nem sequer ouço ruído do teclado ou gemido da máquina. Até os celulares desligo, para não ouvir aqueles tiquezinhos molhados que a maquininha gera.

Aprendi silêncio com Wittgenstein. Quando li dele, há 50 anos, ‘’se não tiver o que falar (ou dizer), cale-se’’ para sempre. Foi o que fiz. Abandonei qualquer escrúpulo literário, e suas concessões e exigências. A literatura deixou de ser de meu alcance, desejo, beiços.

Como poesia não é literatura (está muito além dela), me dispus a ser poeta absoluto, por falta de opção. Digo absoluto, porque excluo o poema compreensível, prosaico, tipo arrumadinho de rima com lições ou recados políticos, sentimentais, pessoais, etc.

Digo (?) o que não entendo, vou ao indito, ao puro indizer. É meu modo poético de ser. Aprendi que tudo o que você diga que sabe já sabia (e não sabia que sabia apenas). Então entender um poema é desqualificá-lo. E nada acresce a si, porque ‘’aquilo’’ você já sabia.

A não (não a má) compreensão de um poema é benéfica ao leitor, é sagração do eu e é a derrota do ego.

Contemple o silêncio; é como ler um poema absoluto. Reflita sobre o ser, não sobre si ou outros. Amém.