SITUAÇÃO NÃO SARTREANA Versão para impressão
Escrito por Administrator   

Com teus grandes olhos abertos

colhes o sol, extrais luz do avaro

inauguras o pleno (magnésio válido)

edulcoras asas, voo de colibris instalas

nas taças das rosas sem conta

enlouqueces o silêncio

és às vezes chumbo

às vezes chama

desejos tu cinzelas, anelos esculpes

e os pregas a meu peito impotente.

 

Cinzeis beiram o meio-dia

desejo chega à tarde (tardo)

encontra rio noturno insatisfeito

para dessedentar-se e crescer.

Mas nada sacia meu coração escuro

cheio de vales e muros.

(As Armas de minha derrota

não deponho porque sucumbo).

 

Queres cegar estrelas (não vê-las mais ou ouví-las)

abocanhar o dom de Júpiter gratuitamente

dilacerar luz e colher

sal dos olhos fechados

(ou por córregos de lágrimas fartos correr)

desperdiçar coivaras e esperas

nichos de claridade cremar

resplendor do sol vedar...

fazes um poema mesmo pequeno.

 

Das mordaças do amanhecer

sorver noite e sino do galo (não natalino)

colher do cânion da garganta grito úmido

a biscoitar no esôfago.

 

Ao ermo homem orar

com galhos de açucena suicida.

A cada noite do páramo

(para onde se retiram águias)

meu olhar mergulha os jasmins das estrelas

sob fartura do luar prospera sede da luz

distante (e perfeita íris de Deus)

sob safra do imenso

e apanágio da brisa fresca e alta

me regojizo com a alma e o mundo.

 

A claridade é vítima

da crueldade do sol

a destroçar a perfeição da noite

do páramo etéreo do Retiro

onde espírito esquadrinhe página

céu noturno catedrático de estrelas

com matilha dos topázios da luz se distraia.

 

Cada sede tem seu vaso saciado

mas ímpio e flácido

barro os aquilata e desmorona.

 

Do solo da alma só angústia medra agora

o desejo é mais que paisagem extinta

(como a Mata Atlântica).

 

Ao asilo do olhar finando-se correm

rios pálidos, desejos disfarçados

ou falsos, o riste da vida definhando

como touro esquartejado

(inda pulsando coração rebelado).

 

(Às grandes, límpidas profundas

chagas da santidade escrófulas luísas

e a odor malévolo da impiedade ofereço).

 

Poentes de sois vermelhos

levante de luas francas

a ocidente de mim

está o escuro, sina do fim

(e rima última e vital).

 

Ao acaso das águas de nosso tempo

da pele sórdida da Terra

subsolo já se apresenta

para última cela de nossas almas.

 

Os rumos das sedes nos rios lentos não sabem

já insaciáveis e de úmido e surdo suor

amortalhados (talhe da alma já cansado)

 

porque já não interrogamos constelações.