Perguntam alguns leitores qual o rumo da poesia, afinal? Versão para impressão
Escrito por Administrator   

A nau do verbo vaga no mar que é morrer e ser novo, na infinita água furiosamente verbal,

vaga nau vaga do poema mar adentro da palavra vida afora sem temor e sem escrúpulo de romper represas e sentimentos ansiosos e velhos íssimos. O barco bêbado aponta novo rumo poético, novo verbo, o futuro da poesia reavivada e insubmissa, portulano labiríntico indica à ébria barca o futuro íntegro do verbo fragmentado.

 

Baudelaire deu a senha: ir a arder ao fundo mais profundo do abismo (abyssus, abyssus), inferno ou céu, não importa, desde que se encontre no ignoto o que há de novo.

Eis a busca da poesia absoluta.

Ao indicar o rumo do há de vir do verbo, Baudelaire previu o futuro desenvolvimento da poesia neoposmoderna.

Eis a indicação do por vir.

Antes dos 18 anos, o gênio francês poeta absoluto dizia, nos versos livres de Movimento e nos poemas em prosa lírica de Iluminações e Uma estação no inferno, antecipação crua do surrealismo 50 anos antes de Breton – outro francês sem igual – dizia o menino Rimbaud que a ruptura chegara com força inaudita, e incessante lavrará – dilúvio de fogo verbal – páginas a frente até o terceiro milênio.

Sou pensado e pensamento, eu é um outro, sinto no poeta o imenso e total desregramento de todos os sentidos (não do poeta empírico ou sentidos físicos – que ele, Rimbaud, no comando do barco bêbado, levaria a pique sílaba a sílaba os significados quaisquer); todos os sentidos da palavra alterados pelo delírio do verbo irrecusável, em lavra id afora. E o id era francês, como o fora alemão em Holderlin.

O visionário (e evidente vidente) Rimbaud, em “Por que não falar de flores”, disparou: à arte poética não cabe mais submeter um eucalipto portentosa (ou um carvalho profético de Dodona) à construção de um hexâmetro, à subordinação de obtusos decassílabos ou a giboiantes alexandrinos, que guilhotinam o imaginário (como se cerce o pescoço da cascavel acéfala).

“O poeta se fez vidente, através de longo, imenso e (in)voluntário ou deliberado desregramento de todos os sentidos”, in Carta etérea a Izambard 13.05.1880, tradução de Rogério Generoso, o nosso maior especialista em Rimbaud, que preside o Centro Cultural Vital Corrêa de Araújo, publicou Noumenun e está com Através, no prelo.

Michael Hamburger – por indicação de Generoso – alude ao escritor e poeta progressista Heine, alemão da melhor cepa intelectual, que afirmava: os poetas do futuro iriam enfrentar a fúria democrática contra a poesia pesarosa e perigosa (amorosa romântica etc). Então, por que cantar as rosas tolo aristocrata? À indagação, Heine se autopensava: Canta a batata democrática, que a fome do povo mata, e o mantém vivo para ir à frente do mundo. E era um chamamento a Rimbaud.