06
Seg, Abr

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                                                                        Vital Corrêa de Araújo

       A poesia está sujeita a ciclos, e é esse ritmo que possibilita sua evolução. É um processo dialético, em que se acumulam versos, livros, sonhos,  e dá-se, enfim, no confim estético, o salto dialético, o pulo da quantidade transformada em qualidade.

        Só a argúcia de alguém leitor permite surpreender um desses momentos vitais.  Mais raro é assistir-se a poesia desabrochando sua flor de qualidade, preparando o fruto e sua arrebentação.  A emoção de tal gênese recolhida na tranqüilidade de uma página em branco.

        A poesia em Rogério Generoso oferece o apelo e a condição em que o êxtase tira sua máscara e a nudez oferta-se aos olhos caudalosos do leitor, hipnotizado pela velocidade metafórica e pela capacidade de desocultar-se que o poeta exibe.

        É o primeiro livro e é um livro de primeira.

        A poesia em “NOUMENON” vem impetuosa, incisiva, súbita, ponderada, veloz, breve, autêntica e traz a marca pessoal, inconfundível, o selo escatológico, o dom demoníaco de um poeta em pleno progresso, mas dono de um estilo maduro, preciso.

        Assemelha-se a poesia rogeriana a um corpo negro, absorvendo todas as radiações que arriscam sua imersão nele, interiorizando toda claridade (o opaco é apenas desdém) sem refletir um átimo de luz.  Guarda gema sobre gema esse rico cabedal de palavras e visões.  Ou seja, é como um espírito que se consome e se nutre de suas cinzas, das quais como Ave Fênix renasce eternamente.

        A poesia em tela é ao mesmo tempo a apoteose do inconsciente e o triunfo da razão.  O fruto da mão em conúbio com a imaginação, do olhar em boda com o além.

        É uma escrita leve e profunda, movida pela áurica energia do imaginário, no sentido da construção e do alicerce erguido por Gilbert Durand e Jean Burgos, que o mestre Sébastien Joachim, aprofunda e leva às últimas e notáveis consequências.

        Nítido é em Generoso, o prélio entre a palavra e o espírito, entre a realidade e o desejo, entre o mundo empírico, objetivo, duro, e o mundo lógico, maleável, não preciso.  E o fragor desse embate na arena do poema, que é a página, ecoa na alma de cada leitor.

        Sente-se que Rogério desencadeia uma batalha de vida e morte com a palavra consoante a lição de Carlos Drummond de Andrade, da necessidade de lidar diariamente com a matéria do poema, que, às vezes, é a do sonho.

       Dessa voragem o leitor sente (na pele e na alma) a resistência ao fácil, ao meramente lógico, ao puramente discursivo.  É esse resistir que dá qualidade e esmero a essa poesia que nasce adulta, firme e diz para que veio.  Se resiste ao fácil, abre-se ao físsil, ao ritmo quântico.

       Generoso despreza, com método quase azul, os terríveis valores fiduciários da linguagem comum.  Seus álibis, armadilhas, idílios ilusórios, tentações, ciladas, suas quimeras e octoplasmas.

       Ele vai direto ao ponto G da linguagem, onde o gozo do verbo é lúcido e avaro.  E dessa fonte retira o essencial, o princípio ativo da poesia.  A coisa em si do verbo.  A matéria última, fundante da poesia, segundo Holderlin.  Como se bebesse nos rios de Ezra Pound, e nos córregos de fogo e cinza de Eliot se mirasse.

       Rogério é uma espécie, uma sorte de feiticeiro íntegro que esculpi o totem do cadinho, com esmero de profeta, e acolhe em seu embornal de palavras eitos de alquimia, dom que ele espalha sem escrúpulo pelas bandejas da página, pelos sítios do texto, pelos meandros e carrefús da escrita.

       Depois dessa lida, ergue a cinza, hipnotiza o pó, edulcora todo o amaro e grita o poema.  Seu texto é hábil lince, dúctil puma de vozes, sua escritura, salamandra vertiginosa e atenta.

       Na poesia de Rogério Generoso flagra-se a primazia da arquitetura sobre a emoção.

Ele é um organista das possibilidades da linguagem.  Abre a horda do inconsciente e deixa-o abater-se com seus fluxos ásperos e ínvios, sobre os princípios superados, a criatura formal, a doença do método, a carnalidade falsa do abstrato.

                  Rogério busca a nudez exata da linguagem.

        Generoso duramente finca bandeiras, impregna de marcos o caminho, estabelece no território ainda virgem da palavra poética conseqüente o seu domínio, elimina limites hipócritas, forja uma atmosfera, um conluio com o que há de vir e de onde advém essa poesia.

        Um poeta verdadeiramente nunca está em juízo perfeito, desfrutando plenamente da chamada razão prática, estabilidade emocional ou frieza de caráter, aridez lírica, estupidez cônica, mas possuído de visões estranhas e evasões para longe do mundo da usura ou dos negócios verbais escusos.

        A palavra poética é plurívoca e ambivalente, obedece a uma lógica que ultrapassa os limites ridículos da lógica comum do discurso, e essa lógica rebelde só se realiza plenamente fora da cultura oficial vigente, no momento da eclosão do poema (que pode gorar ou triunfar).  Se assim não for, se o poema coincidir com a lógica vigente, ele falha e tudo continuará como dantes nos campos de Abrantes.

       Rogério Generoso sabe, tem plena consciência de que a poesia não está na norma, mas em seu desvio, não está no óbvio, mas no estranho, não é entidade solar, porém lunar, não se oferece como coisa dada, mas algo a buscar, não se apresenta inteiriça, porém exige complemento, fazer-se, do outro lado (do leitor).

        A poesia não está na mensagem, mas na forma da mensagem.

        A poesia está em alta, porque um alto poeta surge, e não se fragmenta, porque já vem inteiro, para costurar esse tempo de homens partidos.

 

                                

Murilo Gun

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