Tinha uma profissão peculiar
(fora de série, dizia-se nos anos 80)
e única, acho que jamais exercida antes:
enterrar luzes, quaisquer, sob diferentes formas.
Luzes enterradas enchiam de sombras
o terreno em forma hexagonal
equivalente a 170 campos de futebol
que preparara, com auxílio de um edil, para
seu ofício de coveiro lúcido.
Mantinha em seu labor estranho um ritmo branco.
Cultivava nas horas vagas um campo de papoulas
arrependidas e criava sete minhocas azuis.
De um poço de estrelas extraía baldes de luzes
para esclarecer sua vida ungida de sombras rudes.
Logo cedo abria duas covas de lumes
e uma vala comum para claridade em excesso.
Para lâmpadas suicidas
usava a sombra pesada
de um candelabro.
Quando as luzes deixaram de morrer
para manter o nível e não perder a perícia
começou a enterrar olhos (dos vizinhos
que não observavam bem os arredores).
Triturava safiras, esquartejava quartzos
piritas e almôndegas com fios de azeite esmagava
deles retirava exaustos brilhos
e amêndoas de luz que enterrava
como se estivesse cultivando um pomar às avessas
ou plantando lírios escuros em covas de orquídeas fúnebres.
Desejos inertes e migalhas de pássaros ouvia
antes de dormir: lhe tranquilizavam a alma (escura
porque enterrava bem fundo qualquer luz).
Adorava cores subterrâneas
e sons passados.
Gostava de acariciar a própria angústia
de madrugada. Quando o orvalho ainda sonhava
e a luz do sol (que ele enterrava) nem
ao menos farfalhara sobre o páramo encovado
nem debulhava os olhos das jovens ciosas de viço.
Outonos de alumínio, estações rochosas
dons colaterais de fundo marital
bem como danos equiláteros, estivas fibrosas
abelhas mecânicas produtoras
de mel automático movidas a diesel
apreciava.
A umidificação da cabeça do falo já aposentado
praticava com denodo.
Torcia pelo equilíbrio de seu assessor psiquiátrico
e por times de papel jornal diário.
Toda a esperança que Dante deixou no mundo
antes de internar-se no inferno ajuntou
num bornal e reduziu a cinzas vivas
pouco antes de enterrar oito luzes.
Sabia que a cada enterro de luz o futuro escurecia mais.
(Seu passatempo predileto eram fontes).
Colecionava plástico falso e alfaces
além de quiabos e galáxias. Mantinha
dieta freática e descansava em oásis cinzentos.
Cria em céus infinitos e Deus em dobro.
Era otimista e duplo.
O púbico e o urbano o atraíam.
Também vaginas de borracha vibrante.
(Com pelinhos de fino plástico preto).
Pensou em se aposentar do ofício de coveiro de luzes.
Mas temia o escuro que adviria dessa inação voluntária.
Certamente o excesso de claridade roeria os homens. E
a ascensão da temperatura dos lampejos cremaria as almas.
Junto ao poço de estrelas abriu outro
onde punha luzes moribundas. Dava-lhes
punhados de sal com matizes lunares
para espaçar-lhes o brilho
(só as enterrava quando claro o óbito
e retirado o cadáver da luz infausta
maquiava-o um pouco com pó de estrelas
e outras bijuterias fúnebres
antes de imumá-lo devidamente).
Farmácias do mundo oferecem pílulas
para dores da luz
e xaropes translúcidos para clarões senis (ou lepras pueris
que ensombreavam de máculas surdas
a pele já escuro do déficit lúcido)
mas era inapropriado aviar tais receitas
sem a escuridão de um médico.
Um dia quando voltava do futuro
onde passara férias trouxe
um pássaro de sol com penas brilhantes
que logo morreu e foi enterrado
com mais de oitenta luzes que caíram
da cumeeira de um sombrio monastério.
Guarda de sombra pretoriana
para o préstilo doloroso.
Nunca lidara com luz cúbica ou brilhos icônicos.
Um paiol de claridade quântica avistara uma tarde
quase noite da varanda do vizinho
mas pensou ser um pedaço de crepúsculo
que se desprendera da árvore do ocaso.
Um tipo de ave-fênix conhecera
que fazia florescer covas. Desprezara porque
dava brilhos a cinzas.
Aprendeu a extrair lascas luminosas
do mármore (primo bastardo do sílex)
e raspas de sol dum velho candeeiro
(que vivia a custas de óleo de bueiro).
Fósforo será proibido no futuro
avisou-lhe o vizinho da varanda
para que pessoas como você
não possam ver as covas das luzes.
Um dia enterrou uma parábola que faiscava
(e algumas metáforas sem sentido ou bulhentas).
.
Num armário de seu quarto de visitas guardava
trastes de luz ou coisas que não tinham sexo.
Quando alguma luz ainda que brevemente respirava lampejos
batia-lhe com uma pedra do cume. Bem no eito da claridade enferma.
Pelas paredes do cemitério de luzes (e olhos)
heras subiram e agarradas a elas
pedaços de lilases pupilas.
Chegou a enterrar relâmpagos
(quando os apanhava por acaso
ou seus olhos duros capturavam)
mas era algo muito elétrico para ele
simples coveiro de luzes irresistíveis.
Habitava uma máxima em sua vida obscura:
Tudo que cintile
tudo que centelhe
tudo que flameje
tudo que pouco brilhe
enterro.
Enterro halos, flâmulas, fuzis
chispa, fagulha, olhos, risos e hinos claros.
Enterro manhãs, solstícios
vagalumes densos ou não
e pirilampos de plástico
além de navalhas não foscas
de brilho afiado.
Enterro candeias e piedade.
vagalumes densos ou não
e pirilampos de plástico
além de navalhas não foscas
de brilho afiado.
Enterro candeias e piedade.
Tudo o que fagulhe
ou chispe ou empederne
tudo o que bruxele ou encandeie
enterro. Em vasos de ébria genebra
onde o eterno Borges more.
(O reles coveiro da luz sonhava
executar exéquias de galáxias).
Com todas as salas cósmicas
e formalismo escandinavo (nunca parnasiano).
Todo o ígneo merece ser enterrado
filosofava. Tudo o que luzisse:
lustres, lucidezes, íris quaisquer sopro
com frêmito lúcido
lâmpada, círio, candeias, pinas, cândis
enterrava sem trégua.
Bruxelas, parises, maçãs mordidas
com restos de esmaltes
coisas brancas luzentes enterrava.
Enterrava tudo facho, tocha, archote
urze capaz de bíblico incêndio, crisântemos
coisas lilases, roxos góticos, flamas esconsas.
Era tanto enterro que pensei (eu, o lírico coveiro)
vou criar um pomar de sol
e ver o brilho da lavoura do amanhecer.
O edil que financiara o lauto cemitério
reclamava da falta de critério do coveiro.
Ele enterrava tudo. Até brilho de olhar
luzes aquosas de lágrimas
qualquer fulgor enterrava
e coisas acesas: vagalumes
cintilações pueris, luas, óticas
maçaricos, pilhas de chispas
que escapassem dos martelos de ferreiros
tudo
até mesmo os olhos do edil (agora cego
e reclamando) ele enterrava.
Paiol desativado de luz, brilho de feldspato
estrelas do mar, constelações
diamantes, nafta, viço de rostos das moçoilas
gritos de Goethe, sonho claro.
Ele abria as covas como um pêsame.
E abominava revérberos.
Quaisquer.
(Dito coveiro um dia
ou melhor uma noite morreu
e foi enterrado no escuro
era um escuro profundo
mais de sete latas de sombra o recobria
e sua beira parecia um abismo
ou precipício de breu.
Escuro cultivado por vesgas gredas
que dínamos de .......... torturavam).
Menstruo. Às vezes não. Desrubro.
É sangue ecumênico. Idólatra febril.
Pátria de minha carne.
Consolação do êxtase. Extensão de mim.
Tento bolar um dístico que contemple
minhas atormentadas cinzas e suas sombras cruas, vis.
A propósito, cinzas não repousam.
Temem. Qualquer brisa que as disperse para sempre.
(Estes dísticos dedico às vezes e ao não).
A omoplata vê-se superior ao fêmur
essa a sensação óssea que tens.
O súbito paralisa e sacode
como trovão o espírito.
Silos de ogiva é a lavoura da época
que cruamente adubaste.






