06
Seg, Abr

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

Tinha uma profissão peculiar

(fora de série, dizia-se nos anos 80)

e única, acho que jamais exercida antes:

enterrar luzes, quaisquer, sob diferentes formas.

 

Luzes enterradas enchiam de sombras

o terreno em forma hexagonal

equivalente a 170 campos de futebol

que preparara, com auxílio de um edil, para

seu ofício de coveiro lúcido.

 

 

Mantinha em seu labor estranho um ritmo branco.

Cultivava nas horas vagas um campo de papoulas

arrependidas e criava sete minhocas azuis.

De um poço de estrelas extraía baldes de luzes

para esclarecer sua vida ungida de sombras rudes.

 

 

Logo cedo abria duas covas de lumes

e uma vala comum para claridade em excesso.

Para lâmpadas suicidas

usava a sombra pesada

de um candelabro.

 

Quando as luzes deixaram de morrer

para manter o nível e não perder a perícia

começou a enterrar olhos (dos vizinhos

que não observavam bem os arredores).

 

 

Triturava safiras, esquartejava quartzos

piritas e almôndegas com fios de azeite esmagava

deles retirava exaustos brilhos

e amêndoas de luz que enterrava

como se estivesse cultivando um pomar às avessas

ou plantando lírios escuros em covas de orquídeas fúnebres.

 

 

Desejos inertes e migalhas de pássaros ouvia

antes de dormir: lhe tranquilizavam a alma (escura

porque enterrava bem fundo qualquer luz).

 

 

Adorava cores subterrâneas

e sons passados.

 

 

Gostava de acariciar a própria angústia

de madrugada. Quando o orvalho ainda sonhava

e a luz do sol (que ele enterrava) nem

ao menos farfalhara sobre o páramo encovado

nem debulhava os olhos das jovens ciosas de viço.

 

Outonos de alumínio, estações rochosas

dons colaterais de fundo marital

bem como danos equiláteros, estivas fibrosas

abelhas mecânicas produtoras

de mel automático movidas a diesel

apreciava.

 

 

A umidificação da cabeça do falo já aposentado

praticava com denodo.

 

 

Torcia pelo equilíbrio de seu assessor psiquiátrico

e por times de papel jornal diário.

 

 

Toda a esperança que Dante deixou no mundo

antes de internar-se no inferno ajuntou

num bornal e reduziu a cinzas vivas

pouco antes de enterrar oito luzes.

  

Sabia que a cada enterro de luz o futuro escurecia mais.

  

(Seu passatempo predileto eram fontes).

 

Colecionava plástico falso e alfaces

além de quiabos e galáxias. Mantinha

dieta freática e descansava em oásis cinzentos.

Cria em céus infinitos e Deus em dobro.

Era otimista e duplo.

 

 

O púbico e o urbano o atraíam.

Também vaginas de borracha vibrante.

(Com pelinhos de fino plástico preto).

 

Pensou em se aposentar do ofício de coveiro de luzes.

Mas temia o escuro que adviria dessa inação voluntária.

Certamente o excesso de claridade roeria os homens. E

a ascensão da temperatura dos lampejos cremaria as almas.

 

 

Junto ao poço de estrelas abriu outro

onde punha luzes moribundas. Dava-lhes

punhados de sal com matizes lunares

para espaçar-lhes o brilho

(só as enterrava quando claro o óbito

e retirado o cadáver da luz infausta

maquiava-o um pouco com pó de estrelas

e outras bijuterias fúnebres

antes de imumá-lo devidamente).

 

 

Farmácias do mundo oferecem pílulas

para dores da luz

e xaropes translúcidos para clarões senis (ou lepras pueris

que ensombreavam de máculas surdas

a pele já escuro do déficit lúcido)

mas era inapropriado aviar tais receitas

sem a escuridão de um médico.

 

 

Um dia quando voltava do futuro

onde passara férias trouxe

um pássaro de sol com penas brilhantes

que logo morreu e foi enterrado

com mais de oitenta luzes que caíram

da cumeeira de um sombrio monastério.

Guarda de sombra pretoriana

para o préstilo doloroso.

 

 

Nunca lidara com luz cúbica ou brilhos icônicos.

Um paiol de claridade quântica avistara uma tarde

quase noite da varanda do vizinho

mas pensou ser um pedaço de crepúsculo

que se desprendera da árvore do ocaso.

 

 

Um tipo de ave-fênix conhecera

que fazia florescer covas. Desprezara porque

dava brilhos a cinzas.

 

 

Aprendeu a extrair lascas luminosas

do mármore (primo bastardo do sílex)

e raspas de sol dum velho candeeiro

(que vivia a custas de óleo de bueiro).

 

 

Fósforo será proibido no futuro

avisou-lhe o vizinho da varanda

para que pessoas como você

não possam ver as covas das luzes.

 

 

Um dia enterrou uma parábola que faiscava

(e algumas metáforas sem sentido ou bulhentas).

 

.

Num armário de seu quarto de visitas guardava

trastes de luz ou coisas que não tinham sexo.

 

 

Quando alguma luz ainda que brevemente respirava lampejos

batia-lhe com uma pedra do cume. Bem no eito da claridade enferma.

 

 

Pelas paredes do cemitério de luzes (e olhos)

heras subiram e agarradas a elas

pedaços de lilases pupilas.

 

 

Chegou a enterrar relâmpagos

(quando os apanhava por acaso

ou seus olhos duros capturavam)

mas era algo muito elétrico para ele

simples coveiro de luzes irresistíveis.

  

Habitava uma máxima em sua vida obscura:

  

                       Tudo que cintile

                       tudo que centelhe

                       tudo que flameje

                       tudo que pouco brilhe

                       enterro.

 

  

Enterro halos, flâmulas, fuzis

chispa, fagulha, olhos, risos e hinos claros.

 

 

Enterro manhãs, solstícios

vagalumes densos ou não

e pirilampos de plástico

além de navalhas não foscas

de brilho afiado.

 

 

Enterro candeias e piedade.

vagalumes densos ou não

e pirilampos de plástico

além de navalhas não foscas

de brilho afiado.

 

 

Enterro candeias e piedade.

 

 

Tudo o que fagulhe

ou chispe ou empederne

tudo o que bruxele ou encandeie

enterro. Em vasos de ébria genebra

onde o eterno Borges more.

 

 

(O reles coveiro da luz sonhava

executar exéquias de galáxias).

Com todas as salas cósmicas

e formalismo escandinavo (nunca parnasiano).

 

 

Todo o ígneo merece ser enterrado

filosofava. Tudo o que luzisse:

lustres, lucidezes, íris quaisquer sopro

com frêmito lúcido

 

 

lâmpada, círio, candeias, pinas, cândis

enterrava sem trégua.

 

 

Bruxelas, parises, maçãs mordidas

com restos de esmaltes

coisas brancas luzentes enterrava.

 

 

Enterrava tudo facho, tocha, archote

urze capaz de bíblico incêndio, crisântemos

coisas lilases, roxos góticos, flamas esconsas.

 

 

Era tanto enterro que pensei (eu, o lírico coveiro)

vou criar um pomar de sol

e ver o brilho da lavoura do amanhecer.

O edil que financiara o lauto cemitério

reclamava da falta de critério do coveiro.

Ele enterrava tudo. Até brilho de olhar

luzes aquosas de lágrimas

qualquer fulgor enterrava

e coisas acesas: vagalumes

cintilações pueris, luas, óticas

maçaricos, pilhas de chispas

que escapassem dos martelos de ferreiros

tudo

até mesmo os olhos do edil (agora cego

e reclamando) ele enterrava.

 

Paiol desativado de luz, brilho  de feldspato

estrelas do mar, constelações

diamantes, nafta, viço de rostos das moçoilas

gritos de Goethe, sonho claro.

 

 

Ele abria as covas como um pêsame.

 

 

E abominava revérberos.

Quaisquer.

 

 

(Dito coveiro um dia

ou melhor uma noite morreu

e foi enterrado no escuro

 

era um escuro profundo

mais de sete latas de sombra o recobria

e sua beira parecia um abismo

ou precipício de breu.

 

 

 

Escuro cultivado por vesgas gredas

que dínamos de .......... torturavam).

 

Menstruo. Às vezes não. Desrubro.

É sangue ecumênico. Idólatra  febril.

 

 

Pátria de minha carne.

Consolação do êxtase. Extensão de mim.

 

 

Tento bolar um dístico que contemple

minhas atormentadas cinzas e suas sombras cruas, vis.

A propósito, cinzas não repousam.

Temem. Qualquer brisa que as disperse para sempre.

 

 

(Estes dísticos dedico às vezes e ao não).

 

A omoplata vê-se superior ao fêmur

essa a sensação óssea que tens.

 

 

O súbito paralisa e sacode

como trovão o espírito.

 

 

Silos de ogiva é a lavoura da época

que cruamente adubaste.

 

 

 

Murilo Gun

Advertisement

REVISTAS E JORNAIS