06
Seg, Abr

destaques
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Não foi uma corrida (heroica e dolorosa) 
de touros como a de Salvaterra 
nem chusma de centauros em debandada 
vertiginosa e oleosa alma dum formulaum 


em crua disparada pelas estradas da fama árida
estouro de cavalos, porém hípica épica
(celeuma de poldros), équoo espetáculo 
planícies explodindo, nuvem de pó e pedra, turba convulsa de potros alados 
reluzindo cascos, patas de cálcio, bateria anímica 
surdo artefato, estrépito alado, fuga ovalada 
tiroteio dos cravos, armoriais ferros em conflito 
dissídio de aços, ginetes embalados, bélicas crinas 
flutuando no átimo enlouquecido do trânsito da selva
em correria selvagem, desbalados corcéis espumando 
espádua cavalga sol veloz do prado 
fulgido eco de espuma do corcel ilumina sinos 
acantonados no coxim, do solo desprezadas 
patacadas pétreas, tremendo as terras
joguete destino e uivos debruçados 
sobre paramos e princípios enlouquecendo

desembestados, esporádicas, desvairadas quimeras devorando 
distâncias que as desfiam, desafios, sinas instantâneas 
na cara do cavaleiro espinhos de pujança, pátinas 
que o espaço desova no rosto do futuro
brisa aguerrida, bélico espasmos, os dentes selvagens 
do vento no lenço gargantresco 
renitente circo do grid de largada do alento 
como pão ou sopro multiplicado 
armado como pênis de madrepérola 
intrincado numa vagina de cerâmica rósea 
de cavalos nitrindo, ofegantes e impávidos 
disparados como balas, como biles injetado 
do gatilho da palavra escanhoados 
algazarro sanguinária de esporas despertando alma
e tumulto cônico de prata côncava 
som plúmbeo e baba rasgando boca hípica 
bestas hiando, pégasos amarrados 
no prado da página, hara da palavra 
asas dos cascos subindo da cavalgadura 
atro pelo da voragem ambulatória 
atropelando coivaras e hinos utópicos desmesurados 

hematomas de ferro, desenhos e ferraduras como revoada 
do pássaro de pó e vento pelo oco da alma
ensurdecedor repique da pata de pedra
do linho do espírito, na espádua da hara 
no chão inocente os bilros da batalha
ossos, convulsos, sopros apedrejados 
do barro inocente estábulo de linhaça 
expadachim de argila e lua do crepúsculo rebelde 
na nuca ruça do tordilho malha do cansaço 
ilharga de cambraia, malha suada, focinho alilasado
freio enfileirado ao contrário dos dentes 
rumor crescente, dilúvio de esterco e lamento 
apaziguam voragem boiadeira indefinível 
as conchas do alarido, coral conturbado 
silêncio nu de água inacabada 
cascata de suor descendo desenfreada 
crinas brilhando como pomar de estrelas 
do embranquiçado focinho pulsante foles recolhem 
secreções mártires, nitridos e cavalgadas 
imobilizada na jaula da represa 
torna-se grinalda de abelha 
verdade de baunilha, sonho de tâmara orientada à ceia 
quase desaparecida coroa de súbito ginete.

Arenque de saltos assusta planaltos 
onagro equino atravessa silêncio 
Pégaso ajudo vísceras do ar fustiga 
rocim rocinando, relâmpago selado, raio
cruza prado, empoeira céu 
ferócia traveja, nitrir de narinas 
nitratos de gritos caindo a planície
para alento da tropelia invencível 
espora de estrelas escoiceia 
vagido de galáxias ventre do infinito rasga
estribo de constelações tarmudeia 
fagulha de cone embosca pluma da lua
esculpida no rosto do cavalo (ilhado na alma)
sombra embutida no músculo da vida estripa 
atropela banalidades e pleromas. 

Pradarias virgens agora abertas portas, a nua 
ravina em pelo alucina olhos hercúleos 
dos ébrios corcéis os púbis do prado 
agora submisso ao ereto tropel dos cavalos em pulo imortal
rosas viris cios castanhos ímpetos nus
intumescem veias, emboscam fôlego 
dos centauros enlouquecidos da querela do espaço estourando 
da volúpia incandescente do conflito 
(das usinas das esporas e gume dos estribos 
os lumes dos cacos alumiam o mito 
a luz da dor e do sangue explodindo)
do certame inaudito atropelado por escrito 
ciúme dos deuses em riste, escriba celeste contrito 
da alvorada de fagulhas e nitratos sal rugindo 
vórtice de cabelos bélica brisa agitando 
marés de crinas flutuando (ondas de cânhamo animal)
como viris conciliábulos de incêndios ou bandeiras sobre ombros
e dorsos estrepitosos dos cavalos alentados 
omoplatas poderosas máquinas 
de osso e músculo em revolta 
nervos da espádua em delírio de ferro 
esplêndida musculatura tensa como um tango 
espichada como tamborim ou abandono 
concerto das cartilagens em sinfonias profanas 
ofegantes vértebras, sons cutâneos de aço carnal
marulho ósseo, canção da rótula, ópera 
clavículas e diafragmas externas preces 
de fibras e curvelas em correria aberta.

Poeirentos centauros embriagados da volúpia da velocidade 
fuzilaria de jaspe atordoando a planície 
enxame de asas desfraldando o vento
campeando o ar plano alumínio voando 
a prataria do mormaço desperdiçado o ouro do outono
a cavalaria do sopro refrigério das estações em abandono 
a debandada de uivos preparando o inverno.

Arreios amarelos úmidos tremulando
correias e cilindros gargalhando no prado 
nas carnívoras baterias de álacre tropel líquido 
chispas latejantes dos cascos 
contra a treva do chão e do asfalto 
chapas de aço deslizando como compassos pétreos 
arrancadas como relâmpagos ou centelhas formidáveis 
das bordas de urânio e vanádio humanos 
de ventre da tropelia ensandecida arrancadas 
aguçada estrelas rastejando em busca do brilho adormecido 
laicos músculos refletindo no dorso dos tratados 
filosóficos dos halteres, metafísicas das rótulas 
eletricidade nervosas das rãs, gladíolos de camurça anal
cavalos desabando sobre tumbas de arromba 
perfil elegante da cabeça encrinada 
marcial orelha incendiada, acústica mecânica 
domesticando o hipódromo ladino 
vértebras distendidas como molas loucas 
os glúteos da anca (dínamo de ossos e nervos) em móvel levante 
das brônzeas nádegas samba cartilaginoso, embora dolente, nervoso
relampejante torso e harmonioso em concluiu com a alba 
claridade escarpada do anímico motor em riste 
silêncio de penedos do corpo, prélio de albuminas do pântano 
de pedras róseas curvas do abdome, tudo
sublevado e uno (como uma primícias ou dois assombros).

Arreios debruçados sobre tirso do vento
veloz chamamento do ar de dezembro
suor embicando dos elmos ilíadas 
ubicando coivaras testamento eneida 
pendoando dos muques troianos 
da fuga romana amalgamados.

Entre trinidos e nitridos equestre séquilo 
convulso segue, narinas do hípico prado bem abertas
e céu resfolegando, gerúndios certeiros (e coesos) 
das páginas acantonados, assaltando a alma
estrépito do cascalho, chicotada do relincho
surdina do instante, galope de nitrados, remos esparramados 
cavalgada ensurdecida, freios sem ventre à Euclides 
ensandecida visão de paramos algodoados 
músculos empenhados, a espumejante boca
arroios babosos, unguentos saltando das carnívoras narinas 
em festa de fogo os buracos do nariz em couro, à Castro Alves
o cansaço da paisagem, trânsito estrangulado 
do tempo tecnocrata, balindo como animal de trapaça 
amoedado de homens, guerreiros inabaláveis, o chicote
dos archotes pendoando das mãos imperdoáveis 
ante desvario veloz dos cavalos a estrada da arte
a velocidade (e inocência) das coisas atropeladas 
íngreme destino das patas no rosto dos homens 
rédeas soltas e largas, ilhargas de grafite enterrado 
rodas exaustas, luminosidade veloz das cartilagens 
empapando epidermes vertiginosas de suor reluzente 
pátinas de pedra, orvalhos de safira evaporada 
vértebras púnicas acutiladas de sol 
canícula estropiando dias de montaria
corredeiras de prata dos cascos empinados
bulício dos olhos esbugalhados, volúpia da íris selvagem 
pelo vento estuprada, retinas no ar veloz submersas 
chispas extraídas dos cascos como estrelas de pedras 
luzes de ferro iluminando a vida
enlouquecida dos zinetes e poldros impuros. 
Só o brilho da mandíbula simulando galáxias 
com o sal preliava, o sal animal da alma
que Álvaro anunciava a noite do estouro definitivo.

 

 

Murilo Gun

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