Não foi uma corrida (heroica e dolorosa)
de touros como a de Salvaterra
nem chusma de centauros em debandada
vertiginosa e oleosa alma dum formulaum
em crua disparada pelas estradas da fama árida
estouro de cavalos, porém hípica épica
(celeuma de poldros), équoo espetáculo
planícies explodindo, nuvem de pó e pedra, turba convulsa de potros alados
reluzindo cascos, patas de cálcio, bateria anímica
surdo artefato, estrépito alado, fuga ovalada
tiroteio dos cravos, armoriais ferros em conflito
dissídio de aços, ginetes embalados, bélicas crinas
flutuando no átimo enlouquecido do trânsito da selva
em correria selvagem, desbalados corcéis espumando
espádua cavalga sol veloz do prado
fulgido eco de espuma do corcel ilumina sinos
acantonados no coxim, do solo desprezadas
patacadas pétreas, tremendo as terras
joguete destino e uivos debruçados
sobre paramos e princípios enlouquecendo
desembestados, esporádicas, desvairadas quimeras devorando
distâncias que as desfiam, desafios, sinas instantâneas
na cara do cavaleiro espinhos de pujança, pátinas
que o espaço desova no rosto do futuro
brisa aguerrida, bélico espasmos, os dentes selvagens
do vento no lenço gargantresco
renitente circo do grid de largada do alento
como pão ou sopro multiplicado
armado como pênis de madrepérola
intrincado numa vagina de cerâmica rósea
de cavalos nitrindo, ofegantes e impávidos
disparados como balas, como biles injetado
do gatilho da palavra escanhoados
algazarro sanguinária de esporas despertando alma
e tumulto cônico de prata côncava
som plúmbeo e baba rasgando boca hípica
bestas hiando, pégasos amarrados
no prado da página, hara da palavra
asas dos cascos subindo da cavalgadura
atro pelo da voragem ambulatória
atropelando coivaras e hinos utópicos desmesurados
hematomas de ferro, desenhos e ferraduras como revoada
do pássaro de pó e vento pelo oco da alma
ensurdecedor repique da pata de pedra
do linho do espírito, na espádua da hara
no chão inocente os bilros da batalha
ossos, convulsos, sopros apedrejados
do barro inocente estábulo de linhaça
expadachim de argila e lua do crepúsculo rebelde
na nuca ruça do tordilho malha do cansaço
ilharga de cambraia, malha suada, focinho alilasado
freio enfileirado ao contrário dos dentes
rumor crescente, dilúvio de esterco e lamento
apaziguam voragem boiadeira indefinível
as conchas do alarido, coral conturbado
silêncio nu de água inacabada
cascata de suor descendo desenfreada
crinas brilhando como pomar de estrelas
do embranquiçado focinho pulsante foles recolhem
secreções mártires, nitridos e cavalgadas
imobilizada na jaula da represa
torna-se grinalda de abelha
verdade de baunilha, sonho de tâmara orientada à ceia
quase desaparecida coroa de súbito ginete.
Arenque de saltos assusta planaltos
onagro equino atravessa silêncio
Pégaso ajudo vísceras do ar fustiga
rocim rocinando, relâmpago selado, raio
cruza prado, empoeira céu
ferócia traveja, nitrir de narinas
nitratos de gritos caindo a planície
para alento da tropelia invencível
espora de estrelas escoiceia
vagido de galáxias ventre do infinito rasga
estribo de constelações tarmudeia
fagulha de cone embosca pluma da lua
esculpida no rosto do cavalo (ilhado na alma)
sombra embutida no músculo da vida estripa
atropela banalidades e pleromas.
Pradarias virgens agora abertas portas, a nua
ravina em pelo alucina olhos hercúleos
dos ébrios corcéis os púbis do prado
agora submisso ao ereto tropel dos cavalos em pulo imortal
rosas viris cios castanhos ímpetos nus
intumescem veias, emboscam fôlego
dos centauros enlouquecidos da querela do espaço estourando
da volúpia incandescente do conflito
(das usinas das esporas e gume dos estribos
os lumes dos cacos alumiam o mito
a luz da dor e do sangue explodindo)
do certame inaudito atropelado por escrito
ciúme dos deuses em riste, escriba celeste contrito
da alvorada de fagulhas e nitratos sal rugindo
vórtice de cabelos bélica brisa agitando
marés de crinas flutuando (ondas de cânhamo animal)
como viris conciliábulos de incêndios ou bandeiras sobre ombros
e dorsos estrepitosos dos cavalos alentados
omoplatas poderosas máquinas
de osso e músculo em revolta
nervos da espádua em delírio de ferro
esplêndida musculatura tensa como um tango
espichada como tamborim ou abandono
concerto das cartilagens em sinfonias profanas
ofegantes vértebras, sons cutâneos de aço carnal
marulho ósseo, canção da rótula, ópera
clavículas e diafragmas externas preces
de fibras e curvelas em correria aberta.
Poeirentos centauros embriagados da volúpia da velocidade
fuzilaria de jaspe atordoando a planície
enxame de asas desfraldando o vento
campeando o ar plano alumínio voando
a prataria do mormaço desperdiçado o ouro do outono
a cavalaria do sopro refrigério das estações em abandono
a debandada de uivos preparando o inverno.
Arreios amarelos úmidos tremulando
correias e cilindros gargalhando no prado
nas carnívoras baterias de álacre tropel líquido
chispas latejantes dos cascos
contra a treva do chão e do asfalto
chapas de aço deslizando como compassos pétreos
arrancadas como relâmpagos ou centelhas formidáveis
das bordas de urânio e vanádio humanos
de ventre da tropelia ensandecida arrancadas
aguçada estrelas rastejando em busca do brilho adormecido
laicos músculos refletindo no dorso dos tratados
filosóficos dos halteres, metafísicas das rótulas
eletricidade nervosas das rãs, gladíolos de camurça anal
cavalos desabando sobre tumbas de arromba
perfil elegante da cabeça encrinada
marcial orelha incendiada, acústica mecânica
domesticando o hipódromo ladino
vértebras distendidas como molas loucas
os glúteos da anca (dínamo de ossos e nervos) em móvel levante
das brônzeas nádegas samba cartilaginoso, embora dolente, nervoso
relampejante torso e harmonioso em concluiu com a alba
claridade escarpada do anímico motor em riste
silêncio de penedos do corpo, prélio de albuminas do pântano
de pedras róseas curvas do abdome, tudo
sublevado e uno (como uma primícias ou dois assombros).
Arreios debruçados sobre tirso do vento
veloz chamamento do ar de dezembro
suor embicando dos elmos ilíadas
ubicando coivaras testamento eneida
pendoando dos muques troianos
da fuga romana amalgamados.
Entre trinidos e nitridos equestre séquilo
convulso segue, narinas do hípico prado bem abertas
e céu resfolegando, gerúndios certeiros (e coesos)
das páginas acantonados, assaltando a alma
estrépito do cascalho, chicotada do relincho
surdina do instante, galope de nitrados, remos esparramados
cavalgada ensurdecida, freios sem ventre à Euclides
ensandecida visão de paramos algodoados
músculos empenhados, a espumejante boca
arroios babosos, unguentos saltando das carnívoras narinas
em festa de fogo os buracos do nariz em couro, à Castro Alves
o cansaço da paisagem, trânsito estrangulado
do tempo tecnocrata, balindo como animal de trapaça
amoedado de homens, guerreiros inabaláveis, o chicote
dos archotes pendoando das mãos imperdoáveis
ante desvario veloz dos cavalos a estrada da arte
a velocidade (e inocência) das coisas atropeladas
íngreme destino das patas no rosto dos homens
rédeas soltas e largas, ilhargas de grafite enterrado
rodas exaustas, luminosidade veloz das cartilagens
empapando epidermes vertiginosas de suor reluzente
pátinas de pedra, orvalhos de safira evaporada
vértebras púnicas acutiladas de sol
canícula estropiando dias de montaria
corredeiras de prata dos cascos empinados
bulício dos olhos esbugalhados, volúpia da íris selvagem
pelo vento estuprada, retinas no ar veloz submersas
chispas extraídas dos cascos como estrelas de pedras
luzes de ferro iluminando a vida
enlouquecida dos zinetes e poldros impuros.
Só o brilho da mandíbula simulando galáxias
com o sal preliava, o sal animal da alma
que Álvaro anunciava a noite do estouro definitivo.






