Além do alentado Dicionário de Borges, com verbetes que são conceitos, confissões, sentimentos escritos, acervo de palavras e expressões do escritor Jorge Luís Borges (argentino e cósmico, nascido em 1899 e morto em 1985),
facilmente garimpando sua obra (coisa que faço há 20 anos) ou à margem de centenas de entrevistas, palestras, poemas e narrativas, extraio os fragmentos seguintes plenos de malícia, humor, filosofia.
“Quando em Genebra ou Zurique a sorte quis que eu também fosse poeta, me impus, como acontece com todos, a secreta obrigação de definir a lua. O luxo para mim se afigura como falta de educação. Em várias oportunidades, tentei fumar maconha, mas sempre fracassei, finalmente optei pelas pastilhas de menta. A memória é feita não apenas das lembranças alheias, mas também das pessoais. Ministro é um economista que costumeiramente tenta arruinar a própria pátria”.
Após retomar fôlego, mais Borges: “Depois da morte existe nada. Encaro a morte como uma esperança: a do fim de tudo. Se não repito os outros, repito a mim mesmo e talvez eu não passe de um plágio de mim mesmo, uma farsa de minha própria máscara. É ofício do presente tentar mudar o passado, acrescentando-lhe um matiz novo ou uma entonação diferente”.
O fecho são essas pérolas da culinária, da literatura, da sinceridade e o olvido.
“Na paella bem feita, cada grão de arroz conserva sua individualidade. A poesia não se escolhe e não é uma profissão. É somente a arte de causar emoção, através do manejo das palavras. Entendo que há somente boa ou má literatura. Esse negócio de literatura comprometida é conversa pra boi dormir e me soa como equitação protestante. O que mais conta na literatura é a sinceridade, mesmo que fingida: o importante é que o leitor acredite nela. Ou seja: acredite que o escritor seja sempre sincero”. (Ou que sua imaginação entranhe sinceridade).
Com este “suelto”, Borges encerra uma de suas incursões pelas trilhas da auto-ironia: “Passei toda a minha vida lendo e escrevendo, mas de minha obra literária não se deve salvar mais do que uma página. Ou, apenas, este fragmento.”
Poeta, ex-presidente da UBE-PE






