O doutor Francisco Laprida, assassinado no
dia 22 de setembro de 1825, pelos guerrilheiros
de Aldao, pensa nates de morrer:
Zunem as balas na última tarde.
há vento frio e cinzas no vento,
dissolve-se o dia e a batalha
se esgota e é dos outros a vitória.
Vencem os bárbaros, gaúchos vencem.
Eu, que estudei a fundo a lei e os cânones,
eu, Francisco Narciso de Laprida,
cuja voz declarou a independência
dessas cruéis províncias, derrotado
de sangue e de suor maculado o rosto,
sem esperança nem temor, perdido,
fujo até o Sul pelo dective dos arrabaldes.
Tal como o capitão do Purgatório
que, a pé fugindo e ensangüentando o chão,
foi cegado e morto. Tombou
onde um escuro rio perde o nome,
assim hei de cair. Hoje é o fim.
A noite lateral dos pântanos, oblíqua e nua,
me espreita com sua sombra. Ouço os ossos
de meu corpo alanceado que a morte tremula
com emblema, vertigem e ginete.
Eu que almejei ser outro, ser um homem
de sentenças, de livros, de ditames,
a céu aberto jazerei nos charcos;
porém me espessa o peito inexplicável
júbilo secreto. Ao fim me encontro
com meu destino sul-americano.
A esta ruinosa tarde me levava
o labirinto múltiplo de passos
que meus dias teceram desde a infância
tempo já remotíssimo. Então agora descubro
a recôndita chave dos meus anos
a sorte de Francisco Laprida
a letra que faltava, a perfeita
forma que Deus soube desde o princípio.
No espelho desta noite distingo e atinjo
meu insuspeitado rosto infinito. O círculo
vai se cerrar. Eu aguardo que assim seja.
Já pisam-me os pés a sombra das lanças
que me buscam. O escárnio da minha morte,
os sinetes, as crinas, os cavalos
me circundam... Eis o relâmpago do golpe
e o duro ferro que me racha o corpo
e demole a alma. E a íntima facada na garganta.
1943






