E o que tenho além
do inferno de cada dia
céu enlutado, famélica garoa
pássaro noturno de canto curvo
ítem de metileno e azul dilúvio
de atro metano
derramando-se da alma
pondo-se numa imóvel palavra
como em ninho avesso
verbo rebelado.
Começa treva da tarde
lua se enveluda, se dilui o dia
em negro desengano
crepúsculo se atiça de silêncio
vagamente vai a luz negando-se
sino alucina-se
noite estrebucha
do parto da manhã quando
mundo ainda carpia
fim seguido do dia
seu trânsito, eteridade, rebeldia.
O pesaroso estado da absurda escura
geometria da alma truncada
monumentos do tempo desabando
morte dos caules edificada
demiurgo lírico desatado
cruas pontes, edifícios lassos (de aço pálido)
pobre rascunho de um universo vago
minérios raros, bismutos longos
rancoroso som de licor podre
tempo fechado em épura noturna
sentimentos desvendados.
Metal dos conceitos rebatido
forja da palavra incontida
incognoscível expressão
da ata da alma lavrada com tintas hieroglíficas.
A bomba nuclear para Drummond
é grotesca de tão metuenda
e coça a persa panturrilha abaixo
amanhã promete ser melhorzinha
mas esquece
é a bomba vinda do ímpeto do núcleo
flor de pânico apavorando floricultores mineiros
enrodilhada das chaminés como metálica serpente
envenena crianças antes de nascer
é a bomba além de inumana câncer
do ventre da primavera, lento cancro
cogumelo alto, indizível invenção humana.
A bomba que anunciou Drummond: a poesia em pânico.
Que Vinícius também cantou.






