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Seg, Abr

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Se me depara incrédula jornada - mal pássaros iniciam milenar canto abrindo a manhã no Retiro do Espírito, cerração a cobrir o Brejo e o tugúrio de escrita enevoado -

algo que maravilha, algo que despede clepsidras de palavras em abismo de lúcidas fagulhas: Ocidente tardio, os originais.

 

Obra que se desdobra... e nada sobra ou deixa sombra ou resta dobra, em forma de X capítulos, começando com Distância e exílio, da Ode ao ocidente à Construção da cidade sob os pés, desfile de poemas irreversíveis e possuídos da beleza da palavra poética remoderna.

Atravessando Fluidez e desencanto, após Sonetos latinos, para desaguar em Onze palavras. Poemas como Espiral, Bálsamo, Flâmulas, Ilha, Tiara e Tropical excelem, no âmbito de um livro excelente, com pérolas do verbo quais Setúbal, além de Garanhuns... e o ótimo soneto Da mesma modernidade, a par do estrombote belo Das extremidades do soneto.

Dessas epifanias que o verbo concede, começo desocultar a verdade que jaz e se  ergue do poemário Ocidente tardio, de Valmir Antônio Carvalho.

Como Valmir Carvalho diz, hemos de construir uma frente possessiva e farta que mova a poesia absoluta além... de todos os ilimites ou proverbiais barreiras que a contenham apenas por reflexo condicionado de uma resposta quase instintiva de defesa da poesia estabelecida meio que imperialmente há dezenas de anos. Fazer terra arrasada (waste land) dessa massa retórica infiltrada de convenções rígidas e ritmos nada dissolutos ainda é o desiderato desse magote de escritores indeslumbrados.

Intelectuais, como Admmauro Gommes, Rogério Generoso, Pablo Pereira, Carlos Newton Jr, Valmir Carvalho (de Palmares – FAMASUL), Valmir Jordão e outras dezenas de poetas e simpatizantes ou leitores como Silvia Beltrão e Socorro Durán, todos imbuídos do propósito de revolucionar a palavra estão a organizar essa frente única democrática poética que arrase o quarteirão todo que borra e estagna o futuro da poesia brasileira em pleno terceiro milênio.

São trechos do prefácio da magnífica obra Ocidental tardio, do poeta e professor universitário Valmir Antônio Carvalho (atual presidente da autarquia municipal que mantém a FAMASUL – Faculdades da Mata Sul – Palmares).

Ocidente tardio, Fernando Pessoa e o mar, Nôumenos e alguns outros (de Vilmar Carvalho, Admmauro Gommes, Rogério Generoso e nomes que estão a se impor com obras absolutas de poesia) compõem a vanguarda desse movimento absolutamente moderno e contemporâneo a nosso tempo que marcará a poesia latino-americana de modo vitalmente definitivo, espantando pra longe a pasmaceria que inunda e atrasa e estro brasileiro. Que urge libertar-se das amarras que o prendem ao passado.

O “em movimento” Poesia Absoluta também lança o nome de nova e decidida editora. A Gráfica INOVAÇÃO de Sirinhaém, de mãos dadas com o futuro da palavra.

A poesia não mais cênica, não mais exige palco e atos externos, é interior, mística, intima e púbica mesmo, gozo esmaecido, pulsão interiora.

Não é mais constituinte do discurso, da ordem da fala, da citação, do recital. É silêncio a poesia, lirismo não rentável, desdramática por excelência. Não pathos, só logos. Poesia absolutamente lírica destituída de dramatismos e deus ex-machinas, fora do palco do corpo e do da alma.

E o significado oculto para dar mais visibilidade ao significante (vital material do poema). O cerne tão importante quanto a carne. Poesia é êxtase do verbo nada mais.

A originalidade e mesmo o ritmo não mais estão situados no conteúdo, mas no triunfo da forma. Embora não formalista na acepção parnasiana.

A inventividade se concentra no modo como o poeta diga, nunca no que disse. Daí a cópia ser algo superado – como cópia do conteúdo – pois o essencial é como o poeta, o verso peculiar e inovador que utilize, não para redizer, porém dar forma nova a algo já dito ou não. A vitalidade situa-se na forma do conteúdo. Não no conteúdo da forma. Sigo aqui o imenso Jakobson, que construiu a função poética do verbo.

Desde que as palavras não se consumam em sua utilidade comunicativa... e valham, por si e não por seu significado, que ditem o como foram escolhidas, selecionadas, projetadas na frase (não discurso), constituem-se em poema.

Jakobson disse: Em Poesia, a palavra é percebida, considerada, conotada como palavra e não como signo de um objeto denotado ou expressão de uma emoção (pessoal etc).

O império do emotivo (antes equivalente ao lirismo como questão pessoal e objeto direto do poeta), se encarado como objetivo e veículo do poema, este se diluirá em irredimível versalhada, em mera intenção sentimental, isenta de energia poética... algo bem relativo.

Como tal, não encontramos na poesia de Ocidente tardio essa figuração falha, pessoalizada, particular, inobjetiva. Pelo contrário, o devir do lastro poético absoluto luz no poema. Toda a poesia carvalhesca é possuída de tal escalão.

Uma citação anotada de Merquior bem exprime a situação retratada.

“Lessing dizia da lírica do poeta alemão Klopstock ser era tão cheia de sentimento que, ao lê-la, não se sente nada”.

A obra literária com finalidade de comunicação não cria nenhuma anomalia.

Na poesia, à diferença da veiculação normal de mensagem da prosa, a forma é tão importante, básica, vital, que prepondera e supera o significado, mesmo o oblitera como condição da própria expressão poética. E difíceis, se são de verdade, como as verdadeiras mulheres.

Vilmar passa a limpo, justamente cônscio das veleidades do verso, fases, estados, situações e princípios (mesmo revertendo-os ou desprezando) e engolfa-se numa poesia ampla, aberta, absoluta.

É de se ver o poema como algo estranho saindo da ponta da caneta ou do prado da tecla que o dedo comprimindo a alma aceita; é de haver nesta poesia um itinerário que o id cegamente siga... (como segue à sombra o homem); um périplo ontológico mesmo impreciso; uma trilha aos caos (a que nos levam as palavras do mundo); e há sim uma densa, tenra, perene ou imperfeita viagem espiritual página afora – ou adentro (nunca por cima) nessa obra nova. Todos esses roteiros cumpridos, assaltados, dispostos, estendidos na órbita ou aventura do veículo da escritura poética vital.

E é a poesia de Ocidente tardio que cumpre esse desiderato, essa ventura lírica num redemoinho impreciso e sem cessar de desvairadas e perfeitas transgressões sem pena ou limite razoáveis.

Buscando o íntegro desregramento de todos os sentidos semânticos, ocidentais, figurados, imperfeitos, impostos, de duvidosas transparências ou esfingética certeza, sentidos delirando ainda, porém categóricos e impossível também.

Nutro-me poeticamente do mais insólito possível verbo (ou cadáver de palavra nascente), todo o inesgotável potencial do verbo poético exploro descomunalmente... a cupidez do sentido exato ou definitivo expurgo da página ou da alma; a extremo estranhamento submeto esse verbo que desde Homero e Camões me espreita e alimenta (sofrivelmente talvez, mas com ímpeto e paixão pela palavra).

Similarmente, o verbo valmirano atende a essa condição sine qua non não há poesia.

E a poesia é como as mulheres capazes de tão entranhado amor ilimitado possível quando se lançam em busca do sal, do viço, da luz. Do feitiço da volúpia, da sede que as faz mais belas, secretas, estranhas, imprevidentes inumerosas e desesperadas como a poesia. Que habita nelas, nas mulheres, que é o melhor poema.

Porque é de se instilar na palavra a virtude mágica do sexo verdadeiro, fêmeo e aberto para que haja o poema, na forma do êxtase extrema do verbo.

E o caminho terrestre mais profundo percorrem-no o poema e a mulher.

A morte paciente do leitor é possível na mais cirúrgica página dessa asséptica e conivente mesa que é Ocidente tardio oferecido à mente.

Neste ocidente novo o sol do verbo se ergue, se levanta o brilho da palavra, a luz dobra-se sobre a página como a esperança sobre o ser.

Atiça esse ocaso que cavalga a lauda de Vilmar Carvalho o imaginário. Tão vital ao poema e à vida que se pode dizer: a privação ou ocaso da imaginação é o maior preço que se paga à morte.

Itinerário de treva e luz pura segue o verbo nômade de Vilmar pelas páginas irredimíveis e voluptuosa de Ocidente tardio, livro, sobre o qual, horizonte poético novo se alevanta como o sal do ocidente veloz que consome esse poemário.

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Murilo Gun

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