06
Seg, Abr

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Percy Bysshe Shelley, o imensíssimo poeta inglês era um alucinado. E teria de o ser tal poeta.

O lírico central insuperável puro primordial inglês (Shakespeare era lírico marginal). Como Maupassant (o contista insuperável que Flaubert admirou), Poe (que ensinou composição lírica a Baudelaire), Dostoiévsky – e mesmo Goethe. Que eram alucinadíssimos. Pois sim.

 

Igual ou maior que estes heróis da literatura, Shelley viu-se um dia diante de seu próprio (longo) ego e indagou-se desesperado: Até quando te resignarás a nada? Daí por diante surgiram o poeta lírico sem fim e o ególatra prosaico, um no outro. O prócer do lirismo e o títer da alma. É o que Bergson explicou como “inadvertência do viver”. E Borges diria: realidade do id.

Shelley mergulhou na abstração letárgica, imergiu no absoluto poético... e desse estado unitário (e democrático) brotaram os melhores poemas. É uma espécie de limbo que agride o id. E o faz deslindar o destino da alma (também delirante).

Dono de exaltada imaginação, Shelley nunca se acostumou com a realidade. Foi um gótico antecipado (Byron), atraía-o o fantástico, o sobrenatural contentava-o, era irmão do estranho. Caia em êxtase constantemente. O maravilhoso dominava-o. E a poesia explodia de seu cérebro vigorizado pelo talento lírico que o alucinava (ou iluminava).

Do seus olhos, a luz da inteligência despedia fagulhas e sua visão do mundo era estranhamente lírica, formidável.

O id atulhado da verdade do ser excedia e se derramava em palavras espalhando na página poemas sublimes. (em que a sublimidade lírica não tinha parelha – a não ser em Keats).

Como os grandes e insuperáveis líricos (de qualquer tempo), sua obra detinha uma aura de irrealidade, a mesma que habitava seu ego (sua vida).

Shelley como os poetas românticos amava a morte. Teoricamente, na prática da vida nunca cogitou do suicídio. Apenas sonhava em deter “a chave de ouro da câmara do eterno repouso”, a seu alcance.

Atraía-o sobretudo o mar. As águas em suma: lagos, rios, o elemento que Tales considerava a substância última do mundo.

Navegava o Tâmisa, o lago de Genebra (com suas fontes?). As águas italianas eram-lhe sinceras e tépidas a sua alma fugitiva, acalmando-a. Daí, a morte pela água (que lhe adveio, como que atendendo de modo esdrúxulo a sua afeição – e desejo?).

Uma manhã de sol italiano levou-o a uma viagem com amigos numa pequena embarcação, que o mau tempo devorou. O naufrágio do lirismo vivo. Dias demoraram a localizar-lhes o corpo. Trazia no bolso direito molhado Ésquilo e no esquerdo o enxuto Keats.

Byron queria-lhe o crânio (para usar como vaso de vinho – ruby flagon). Não o deram os parentes. Shelley foi incinerado. Obedecendo a ritos antigos, a cerimônia incluiu uma pira para seu cadáver. E enquanto o fogo transformava Shelley em cinzas, Lord Byron recitava trechos da Ilíada, de Homero.

Em meio às chamas rituais, um fenômeno: o corpo queimado estala, abre-se e brota de entre o fogo alto o coração do poeta intacto, enquanto o cérebro fervia na bacia do crâneo. O coração de Shelley foi retirado... e enterrado na Inglaterra.

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Murilo Gun

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