06
Seg, Abr

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

         Cláudio Veras

                Quando Hegel viu Napoleão cavalgando (em seu pégaso gaulês e universal) pelas ruas de Iena, declarou de chofre que tinha encontrado o espírito do mundo a cavalo. O absoluto.

Até falecer de cólera em 1831 (em Berlin), Hegel encarnou o espírito absoluto. E despregou – ao res de chão, Napoleão, após este virar títere e imperador.

                Hegel quase sempre, como criador de um sistema filosófico de vulto e avançado, extremamente obscuro, foi possuído da voragem do conhecimento. Como Heidegger hoje. E seu sistema (idealismo absoluto) não é apenas complexo, mas seguramente incompreensível à mente comum (os comuns mortais o detestaram em princípio – e continuam a fazê-lo).

                Para Hegel, as ideias são os fatos do mundo. (Seus intestinos?). Se assim o é, então: o pensamento é a realidade. Ser é pensar. Realidade é sentido. Ou seja, quanto mais racionais tornamos os fatos, mais reais eles são. (Ou serão). Novalis: quanto mais poético mais verdadeiro. Hegel: quanto mais racional mais real.

                O racional é real. O real é racional. Se se deseja compreender a identidade das ideias racionais e da realidade, como o fez Hegel, deve-se dizer que o pensamento não é aquilo que pensa, mas o que ele pensa. Isto é, as ideias são aquilo que pensamos, porém existem independentemente do pensamento das pessoas. A realidade portanto está em nós e fora de nós. Eis o idealismo objetivo hegeliano.

                Aplicação à poesia absoluta: nenhum poema pode ter seu sentido em si mesmo, dentro do leitor, porque a poesia é do mundo. Então, nenhum sentido pessoal é real. Envolve o contexto, o mundo. Somente a poesia é real. O poema não. Porque nenhuma parte é mais real que o todo.

                O poema é algo dado em palavras, é promessa a vir a ser. O poema não é somente. O poeta absoluto não vê no poema coisa, porém processo. Vir a sendo. Algo que não está fora, apartado do devir. Poema é mudança e desenvolvimento (não reino) na história da palavra. O que permanece (parnasianamente) apodrece.

                O poema é movimento porque está em processo como tudo. Em dado momento, o poema está incompleto, inacabado, eternamente (na mente eterna de Deus poeta)! Alguns simulacros de poetas dão realidade ao poema em um estágio de seu desenvolvimento. Ao que não é ainda porque está sendo. Abstrai-se o movimento para concretizar o poema. Porém seu sentido permanece em movimento (abstrato).

                Hegel foi o último grande gênio especulativo a surgir na história da filosofia. E seu sistema dialético e idealista (objetivo) ainda hoje gravita em torna das melhores mentes ou mesas filosóficas.

                                                                                             ADENDO

                A coruja de Minerva começa seu voo quando as sombras da tarde já caíram. Minerva é o nome romano dado a Atena, a deusa grega originária de toda saberia e conhecimento. A coruja era sagrada a Atena e é seu emblema (símbolo). O que Hegel quis dizer, aparentemente, é que toda explicação é antes uma justificação. O mal é considerado necessário, como contraponto ou condição da existência, da harmonia universal. Marx inverteu essa concepção, ao declarar que: “Os filósofos até agora têm tentado explicar o mundo, quando a verdadeira tarefa é mudá-lo”.

Murilo Gun

Inscreva-se através do nosso serviço de assinatura de e-mail gratuito para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.

REVISTAS E JORNAIS