Ébrios deuses aportam do meu rosto volúvel
começam ruidosa empresa
de acordar rios e veias
fluindo de mim.
Adio sílaba pressaga, unto
de argumentos macios ferida
que palavra abra no poema
(porque poesia é a palavra enlouquecida
e a loucura verbal não cessa
com morte transitória do poeta).
Quilha da loucura aponta
para mar do amanhecer impuro
água sóbria não a governa
apenas desancora
do cais da página.
(do poema Desâncora viva)
Encontrei CDA no meio
do meu caminho poético baldio
e pedregoso como arrecife ou abrolho.
Este é um país de pedra
orvalho vermelho
sal indômito (ou selvagem)
e musgo esquecido
na ladeira
em que lua não bata.
Não adules o poema, diz Drummond
nem o leitor dele, digo eu.
Tempo de ásperos homens (VCA)
e maus poemas (CDA).
Só blasfêmias
e atrocidades viris.
Só.
Fibrilas flutuando
alastrando-se como ervilhas curtidas
sobre cálcio iluminado
cravejando de asperezas e diásporas
cápsulas de espelhos cegos
enraizados na alma do poema.
Íngremes sais, silos de cios
suntuosos sumos (que me enleiam lábio turvo)
quilos de cevadas, cardumes de afetos
dilúvios de abismos, apogeus de genitais
tudo me devora no poema.
Montanhas de cios, bátegas de ócios
abismos de luz corrêa de araújo
dilúvios de sumos cavalcantis
resmas de sais albuquerques
acepipes, cipós, intrincados enxames de olhos
seda e pó, grosas de dantas barbosas
hóstias de ossos escarlates
e fluxos interruptos
tudo oprime a palavra defunto.
(No meio de minha morte tinha duas pedras
alicerces de lápides, laudos de basalto dos nomes
e das datas irrecorríveis, como decretos nus).
Tudo abrindo nervuras novas
na folha do outono já flácido.
02.11.2011
Após velório poético
(confessando-me)
Tuas mãos detêm o sal da palavra
que salva pomar das manhãs inteiras
tua boca traga lábio do porvir.
Dura rio seu poente como pássaro
que não aflui da pedra nem do pânico.
Respira ainda deus moribundo
que te emprestou o sopro
(que provisório alento instilou
em tua alma de sombra pelas aéreas narinas).
Do som dos olhos
da água amotinada
vem o amanhecer da palavra
na pedra do poema encontras
dilúvio de lápides
porque adoras rumor de epitáfios recentes.






