06
Seg, Abr

destaques
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A loucura é uma haste que gargalha
ambulância escura de macas mofadas
nuvem descalça e sem data ou norte
é uma gema severa a branca loucura


um velho balir de ovelhas em frangalhos
um fremir de panteras pardas a loucura é.

A loucura é uma dália que balança 
ao pando parido de uma abelha qualquer
rosa que pende da haste do desvario a loucura
num jardim de delícias proibidas abandonada.

A loucura é um tigre desesperado 
salto num precipício, repouso numa flor 
vírgula enviesada, interrogação suspensa.

Hoste de sujos anjos a loucura
resma de lautas brancuras 
léguas de vagalumes cegos 
tenda calma, lenta, árdua, súbita: a loucura.

A loucura é uma rua de Coimbra
noite suábia, estrela que atira
luz sobre o rosto sádico de Recife
perdiz que morre, golfo sem nome
alameda dispersa na raiz da noite
fagulha vaga do cérebro de Holderlin
é uma tarde de setembro em Amsterdã a loucura.

Ou uma gota de luz da Andaluzia 
e um fuzil de Granada que apaga o mundo.

A cinza de um amor, o exposto 
esôfago do futuro, viril brilho
de uma espádua de madrepérola
uma tira inútil de um hímen
colheita do último e vesgo fogo
matiria de delírio perseguindo o homem.

a meu avô Manuel Florentino Corrêa de Araújo

 

Murilo Gun

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