A loucura é uma haste que gargalha
ambulância escura de macas mofadas
nuvem descalça e sem data ou norte
é uma gema severa a branca loucura
um velho balir de ovelhas em frangalhos
um fremir de panteras pardas a loucura é.
A loucura é uma dália que balança
ao pando parido de uma abelha qualquer
rosa que pende da haste do desvario a loucura
num jardim de delícias proibidas abandonada.
A loucura é um tigre desesperado
salto num precipício, repouso numa flor
vírgula enviesada, interrogação suspensa.
Hoste de sujos anjos a loucura
resma de lautas brancuras
léguas de vagalumes cegos
tenda calma, lenta, árdua, súbita: a loucura.
A loucura é uma rua de Coimbra
noite suábia, estrela que atira
luz sobre o rosto sádico de Recife
perdiz que morre, golfo sem nome
alameda dispersa na raiz da noite
fagulha vaga do cérebro de Holderlin
é uma tarde de setembro em Amsterdã a loucura.
Ou uma gota de luz da Andaluzia
e um fuzil de Granada que apaga o mundo.
A cinza de um amor, o exposto
esôfago do futuro, viril brilho
de uma espádua de madrepérola
uma tira inútil de um hímen
colheita do último e vesgo fogo
matiria de delírio perseguindo o homem.
a meu avô Manuel Florentino Corrêa de Araújo






