06
Seg, Abr

destaques
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Não era a voz do amor
(que é mudo e infinito)
era a da carne
que gritava e era tênue


frágil como uma noite de cristal ou corça de louça
e efêmera como o êxtase de um cisne.
 
Naquela noite lábios incessantes se sugavam
e sibilantes eitos de saliva se ouviam.
 
Éramos livres
porque o desejo rompera todas as peias.
A noite estava possuída de seus demônios
e os corpos ébrios de posse e alucinação.
 
Nu catre de cetim engatados
a volúpia neles engastada como pérola.
Gemidos pareciam sílabas
e nenhum hiato os apartava.
 
Cegos só se viram um ao outro
sob o lasso fulgor do gozo

sobre o ínfimo sítio da cama
que era infinito.
 
Corpos da alcova libertos
sem os cadeados do medo
 
lassos os elos do respeito valia só
a dignidade do desejo.
 
Cardos ardentes nus uníamos
liames de amor sublime
enquanto a noite enlouquecida
velava nossa volúpia.
 
Morrer é ir para distância maior.
 
A poesia é a palavra do acaso dado.
 
Cada um está só no coração da terra
trespassado por um raio de sol...
e de súbito é noite.
 
         Salvatore Quasímodo, poeta italiano
         Prêmio Nobel de literatura pela obra poética.

Murilo Gun

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