06
Seg, Abr

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

  Mallarmé, Valéry, o grande Wordswort e, em geral, os poetas simbolistas sempre  afirmaram  que  o  poema  não  deve  dizer,  explicitar,  informar  ou descrever diretamente, mas sugerir.

  A palavra sânscrita “dhvani” (que colhi de um alfarrábio VCA antigo), que parece  figurativamente  com  devaneio,  desvario,  significa  ressonância  e  pode ser traduzida por “sugestão”.
  Hoje, sugestão  teve o seu significado  (conotação) purificado, perdendo as  ressonâncias vinculadas à hipnose  (que  implica perda de consciência) e à persuasão (influenciar o outro etc). Porém, guarda ainda um resíduo do sentidode insinuação.
  A  poesia  absoluta  se  alicerça  profundamente  na  sugestão.  O sugestionamento  que  acompanha  o  verso  é  vital,  até  mesmo  em  termos curativos (e não só criativos), estabelece um princípio unificador novo que influi na mente do leitordesperturbando-o, inclusive, ativando-o, em função do verso
complexo ou hiperverso da poesia absoluta.
  A  poesia  organiza  uma  espécie  singular  de malha  cerebral,  induzindo novos  significados  e  subsignificados. Não  se  trata  de  comunicação  imediata, informação  poética,  mensagem  evidente,  clara,  definitiva,  mas  de  essência arquetípica, original, que a poesia deve propiciar.
  Se  leitor  resiste  à  comunicação  imediata,  não  mais  exigindo-a,  em termos  de  recado, mensagem  (política,  amorosa,  sexual  etc),  e  se  expõe  à profundidade  do  signo  e  embosca-se  nas  árvores  da  essência,  fugindo  das selvas  da  aparência,  sobrevive  ao  teste  da  poesia  difícil.  É  ridículo  quando
alguém folheia um livro meu e sapeca: eita, tem que ter um dicionário de lado. É a coisa mais idiota que alguém possa dizer.
  A  poesia  absoluta  traz  uma  intertextura  em  A:  amétrica  e  assimétrica (que  inclusive  rima).  Pois  o  metro  cancela  a  imaginação,  interrompendo  o processo  criador,  com  osdedos  contábeis.Troca-se  o  insubstancial  pelo material vulgar.
  Por  isso a poesia nos capacita mais que a prosa para conceber a vida sem medo, suportar adversidades fantasmas, fugir do existir aterrador a que a pessoa  comum  –  e  analfabeto  em  poesia  complexa  –  se  submete cotidianamente.
  Ao  se  desviar  da  comunicação  imediata  do  verso  complexo (hiperversobom)  o  leitor  lança  mão  do  cérebro  que,  desafiado  pelo  poema hermético, multiplica, neurônios para vencer o desafio da hermenêutica verbal.
  Há  um  descargo  da  inconsciência.  O  leitor,  ao  se  desincumbir  do entendimento  direto  do  poema  (sob  pena  de  não  ser  poesia  metrificada, rimada, romântica, clara),  imerge numa dimensão nova, em que a poesia age, estimula  a  mente,  sugere,  desbrava,  amplia  horizontes  exegéticos,  liberta  a imaginação das peias métricas e  rímicas. E  se  realiza,  vai além do potencial que o limitava.

  Eis o papel criador e curador da PA.

Murilo Gun

Advertisement

REVISTAS E JORNAIS