06
Seg, Abr

destaques
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I

Não basta narrar a morte

nem romanticamente sentí-la

antecipando o escuro espetáculo...

 

Sou morto, estou vivo e farto

escrevo como um demônio cívico

o íntimo publico sem místicas imóveis

ou intenções escusas e carnais.

 

Não quero acabar com o juízo de Deus.

Quero preservar o meu poema

de condenações ou burlas absurdas.

 

Se nada há mais de brotar do sopro

dissolvendo-se... que o fruto cru

da palavra arrebente

a página da alma.

II

O mais... e o menos também

concedo ao delírio verbal.

 

Se todas as significações

foram bem estabelecidas...

serei o mais estranhado poeta

pois elas não me ultrapassam

permanecem estacionadas na passagem.

 

O sentido do poema é inexpugnável.

Os sentidos estabelecidos são passados.

Apodreceram. São fiéis sem fé verbal.

 

É cômico e trágico antecipar o sentido

absoluto do poema, se ele não o traz

ou se o sentido é o poema em si.

III

Do catálogo da lucidez ou de suas sombras

aptas não se extrai nem um poema.

 

Amo os equinócios e as mulheres

iguais ou insinceras demais.

 

De elementar náusea nua

e íntima sofre o espírito.

 

Signos sem ventre, muros de sal

silêncio preserva qual relíquia.

 

No rosto inelegível do sábado.

 

Tempo redil das horas ébrias

rebeladas, jângal dos relógios

moles.

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Murilo Gun

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