Vital Corrêa de Araújo
Não é que esta poesia tenda à abstração gratuita, descure da palavra, e da figura, que representa, há milênios. É que esta poesia, além de intensificar,
imprimindo-lhe alta voltagem metafórica, no sentido poundiano, privilegia a imagem, e, se desfigura algo, é o discursivo, a peste do prosaico instilado criminosamente na poesia, por mercenários que se dizem poetas.
Valores estabelecidos, cujos fundos foram esvaziados – e sobrevivem como fantasmas – continuam a vigir na poesia, o que gera notável insatisfação. De um lado. Do outro, o virtuosismo parnasiano reina, quase absoluto.
Desde que Kandinsky, em 1909, criou o abstracionismo na pintura, demonstrando que a necessidade da abstração é crucial em arte (moderna) atual, a literatura ficou em suspenso, à espera de um igual movimento ou análogo gesto, que fosse buscar um sentido mais profundo, a essência que a poesia instaura e garimpa, por trás das aparências exteriores.
O mundo objetivo é uma reserva de caça da ficção, da prosa, enquanto a da poesia é o mundo subjetivo, emoldurado pela intuição e batido pelas ondas da emotividade, cujo fluxo estabelece o equilíbrio, a maré propícia ao melhor poema.
Uma poesia em que as palavras dissolvam (e não apenas pintem ou disfarcem) os objetos (temas), sob efeito da comunhão de ondas luminosas e raios de escuridão.
A ordem é não submeter as palavras a amarras, mas libertá-las das continuidades exaustivas de sentido (essa sede insensata, e destrutiva da melhor poesia); libertar as palavras no (e do) poema da busca desenfreada, frenética, indesculpável (ou melhor, culpável) de sentido, como ar para respirar, como a última tábua para náufragos.
Trata-se, paradoxalmente, de respeito para com as palavras o que guia esta poesia. O mover de formas para além do bem e do mal.
Poesia que não vise o mercado comum do leitor: que apenas procura comunicação e/ou conhecimento.
Necessariamente, não vai encontrá-los em nenhuma poesia moderna.
Esta é uma poesia mais não-objetiva que subjetiva, ou mais não-subjetiva que objetiva. Que rompeu a representação verista, que é a forma da aparência.
Uma poesia que renunciou ao sentido imediato (e aos 5 sentidos ordinários, em prol de outros 7 sentidos ocultos).
Como em Rimbaud, ela objetiva o desregramento de todos os sentidos, isto é, de todos os significados; que consta de ensaio sobre o livro inédito Simulacro.
Como o bem dito do Professor Sébastien Joachim: “A poesia de Vital veio para derrubar o significado”.
Parte-se do princípio de que o homem é a medida do racional e do irracional; de uma situação em que o desnudamento do inconsciente é necessário, mas não suficiente.
A poesia não se distanciou do leitor (mas este dela), apenas reiniciou um ciclo.
Estes poemas foram criados, perseguindo o máximo rigor formal possível, no quadro do estilo dado. E mesmo que o não fosse (ou assim o julgasse alguém) a falta de rigor formal não hermetiza o texto poético automaticamente (como outros pensam). Tenho dito.






