06
Seg, Abr

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O meu destino é a língua castelhana

O bronze de Francisco de Quevedo,

Mas na vagarosa noite caminhada que se desdobra em sombra

Exaltam-me outras músicas mais intimas.

Alguma foi-me dada pelo sangue

– Oh voz da Escritura e Shakespeare –,

Outras pelo acaso, que é benévolo,

Mas a ti, doce língua da Alemanha,

Escolhi-te e busquei-te, solitário.

Através de vigílias e gramáticas,

Da selva espessa das declinações,

Do dicionário, que não acerta nunca

Com o matiz preciso, aproximei-me.

Minhas noites estão cheias de Virgílio,

Disse uma vez; também posso dizer

De Hölderlin e de Ângelus Silesius.

Heine deu-me seus altos rouxinóis;

Goethe, a fortuna de um amor tardio,

A um tempo indulgente e mercenário;

Keller, a rosa que uns dedos depõem

Na mão de um morto que lhe queria muito

E que nunca saberá se é branca ou rubra.

Tu, língua da Alemanha, és tua obra

Capital: o amor entrelaçado

Das vozes compostas, as vogais

Abertas, esses sons que propiciam

A decifração do hexâmetro grego

E o teu rumor de selvas e de noites.

Tive-te algumas vêzes. No fim, hoje,

Dos anos fatigados, vislumbro-te

Longínqua como a álgebra e como a lua.

 

(El Oro de los Tigres)

 

 

 

 

Murilo Gun

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