06
Seg, Abr

destaques
Typography
  • Smaller Small Medium Big Bigger
  • Default Helvetica Segoe Georgia Times

                                                 Vital Corrêa de Araújo

     Toda essa pesada ideologia de trancafiar a palavra poética em alvéolos morféticos (não morfológicos), em celas métricas, cárceres anacrônicos; em túmulos chamados versos ou jaulas formais é resquício da nostalgia do prosaico,

da reação que a prosa apresentou e continua a oferecer em face da precedência do poético, da poesia, na origem da literatura (e da palavra).

      A prosa, asséptica e assexuada, lógica e sem adereços, é a língua do “capitalismo”, da indústria e da tecnologia a serviço dos bens materiais, o que não é nada romântico, e como tal qualquer linguagem que alardeie o sonho, roce a fantasia, mobilize desejos mais profundos, mesmo a prosa poetizada, deve ser ridicularizada, exposta como sintoma de loucura, da anomalia, de pouco senso ou fim prático, e execrada ela e os “poetas” que a utilizam.

      Todo esse ridículo exigir-se do poeta ritos quantitativos, obediência a cânones ultrapassados, enquadrando o poema em moldes rígidos, em duras fôrmas, antes de sentir-se seu conteúdo; toda essa ânsia de encontrar um pé quebrado (e arrasar o poeta); isso de começar contando sílabas e dizer: foram utilizados 3 redondilhas maiores, 2 octossílabos e “n” decassílabos sáficos, ou o poeta sabiamente usou 4 troqueus e 6 espondeus, com rimas toantes alternadas, equivale a reduzir o poema a um traste mecânico, a um fantasma enjaulado, coisa artificial, algo apenas verboso ou com vivos resquícios de prosa (pura nostalgia do prosaico).

      É a velha confusão de forma poética com a aparência exterior do poema, que se repete como sobrevivência bárbara e se torna exigência mecânica, padrão natural.

      Só é poeta quem rimar e contar sílaba. Cantar é contar. A contagem é maior. A trena, primeiro. Depois a poesia.

      Se você tem 10 versos (ou agrupamentos, listas, séries) organizados em grupos (estrofes) que permitam visualizar 3 blocos autônomos (de sentido aparente) em si, não necessariamente entre si, o caráter ou a qualidade de descontinuidade do poema possibilita a permutação desses blocos, com prejuízo do “sentido original” (buscado objetivamente pelo autor dos versos), mas com o privilégio, a condição ou vantagens de fazer emergir novos e diferentes sentidos, ainda insuspeitados, não apenas residuais mas inéditos.

      E é o leitor quem, rearrumando, extraindo blocos, sintagmas, versos, revisualizando o poema, confere ser aos novos sentidos, não provocados pelo poeta original ou originário.

      A poesia está nessas partículas de DNA verbal, poético.

      O poema livre tem sentido livre e não preso a vírgulas, coincidências planejadas de sons, normas presidiárias.

      O próprio – e só ele mesmo – leitor estabelece, molda, extrai os vários poemas que há dentro do poema.

      O poema, dentro do poema, mesclado com as impregnações virtuais da palavra poética, é uma vertigem, um momento do acaso (um instante por ele ditado), um relâmpago de visão da imagem concretizada em palavras.

      Depois de elaborado – se é um poema real, o poema pertence ao leitor (que o recompõe como na obra aberta de Eco) ou pertence à releitura do próprio poeta criador, de modo que só o leitor pode manipular, lapidar, desprezar, rearquiteturar, transmutando-o em um ou vário poema, com unidade de sentido cada e mesmo autonomia formal e de conteúdo.

      Esse é privilégio do leitor, que perante uma série descontínua de “versos”, em que se distinguem unidades autônomas, formalmente e de sentido próprio, quais palimpsestos, fontes de emergência de novos sentidos, é soberano e crítico, posto que só assim a leitura do poema não é estática ou mecânica, mas criativa como a poesia.

      Cada série compõe-se de um ou mais cordões de sintagmas entre si unidos por uma corrente de baixa energia sintática, via dispositivos como desinências, conectivos, normas rígidas gramaticais básicas, etc, tudo o que equivale a cal ou ao cimento sintático minimamente necessários, como invólucro ou complexo sintagmático (formando atroz corrente).

      O leitor quebra essa atroz cadeia, na leitura e sua organização, e rearranja as tiras, blocos, sequências do DNA verbal, identificando novos poemas ou novos sentidos dados aos blocos desentranhados.

      Em termos radicais: “10 versos” (ou um poema criado a partir da junção, congregação ou boda em que palavras se organizam em sentido e forma específica, própria, configurando a aparência do que se denomina versos, estrofes, etc), este poema de 10 versos, ao olhar leitoral de quem os veja e sinta, pode apresentar outras formas, de modo a representar ou equivaler a: 1 poema de 10 versos, 10 poemas de 1 verso, 3 poemas de 3, 3, e 4 versos (se assim for estrofado), ou um poema de 3 estrofes, ou ainda “n” poemas, dependendo das várias permutações possíveis que o leitor engendrasse independentemente da vontade “política, literária ou formal” do autor.

      Enfim, não há um poema, mas o poema, formado por partículas descontínuas de poesia, que, permutado, untado de forma especial pela liga sensível do leitor, permite desentranhar “X” poemas.

      E, como em poesia, a forma é a condutora do sentido, é a unidade de DNA da palavra, o poema deve necessariamente sofrer metamorfoses e nunca ser idêntico a si mesmo (num mesmo tempo ou espaço).

 Dotada de terrível potencialidade (poeticidade), a forma em seu dinamismo cria “n” conteúdos em seu imprescindível, inevitável e necessário desdobramento. E o resto é prosa!

                                                Gravatá, 1991

 

 

Murilo Gun

Inscreva-se através do nosso serviço de assinatura de e-mail gratuito para receber notificações quando novas informações estiverem disponíveis.
Advertisement

REVISTAS E JORNAIS