06
Seg, Abr

Poemas
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Lírico é quem considere evidente

que a palavra se torne súbito poema

tal logo umbral se desmantele

como lata a um tiro de verbo.

 

Tão químico instante ao cubo o torne. Ou sal se torne.

 

Poema absoluto é um buraco negro vérbico.

Nenhuma mensagem ou luz que o adentre

ou constitua dele saia... é o poema.

 

E de suas bordas irrespiráveis

tudo se transforma

(inclusive estrofes próximas).

Deforma o sentido da palavra

vizinha ou do leitor desavisado.

 

Estando estabelecido de modo unívoco

inquestionável, límpido ou não, mas

definitivo ou eterno o sentido, o poema

jamais será absoluto, porém relativo

elementar como o céu contingente.

Como o instante (incerto) de um átomo

é o poema absoluto... equívoco vital.

 

A disposição e toda sua equivocidade.

de átomo da palavra é absoluta.

 

Constitui poema absoluto um equívoco

conjunto de palavras abstratas ou não

de sentidos probabilistas infinitos.

 

Visa a poesia à produção do mais

imprevisto verbal possível.

 

Poema é o lugar do espaço da página

(átimo do sítio da alma ou láudano)

em que se dê brusco equívoco

salto verbal qualitativo possível

sobre pobre lauda branca.

 

Pode-se reconhecer ou não pela pose

das palavras no texto indevido a devida

ou não presença poética absoluta.

Pois a posição imposta pelo poeta

à molécula da palavra, à configuração

sintagmática é essencial ao poema.

 

Como um estranho objeto quase estrelar

(quásares) inverossímil o poema.

 

Como incômodos e insalubres

portões incandescentes do inferno

é o poema vermelho absoluto. (Só luz).

Luz impiedosa. O plasma, seu sintagma férreo.

 

Do poema absoluto, restam ângulo esquecidos

no limbo da página. Além do vazio

absoluto de sentido dotado de mínima

coerência ou sem dúvidas.

 

É o vazio flutuando normalmente (como libélula lenta)

certo momento vital de poema absoluto.

 

Vazio submetido a um campo de palavras.

Intenso como um dilúvio branco.

 

É a redação radiante ou radiância

de um radioativo verbo que o possui o texto.

A entropia verbal do poema absoluto

é ímpar. E vitalmente invoraz

ferocemente sincera, visceralmente apta.

 

Jamais minuenda tal entropia casta.

 

Como cifra que seja, poema absoluto

gerável de quaisquer temas

mesmo os impossíveis ou nenhum

dos possíveis, poema absoluto produz

contém ou incontém um noumenon (Kant)

pesado de narrativas irreais ou puras

que indeterminam ou não sua entropia

 

 

verbal ainda indefinida porém real.

 

Impregnado de seu próprio sangue original

velino se oferece à maciez do poema.

 

E conserva em si toda a mecânica do equinócio.

(Segundo Perse).

 

ADENDO: Para chegar ao poema ou a seu absoluto

levante-se de mesa fixando com dolo

e dolorosamente a vista intensa

no papel em branco, limbo do poema.

 

Mantendo o focinho em riste vital.

Isso ao invés da sesta deitada.

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Murilo Gun

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