Lírico é quem considere evidente
que a palavra se torne súbito poema
tal logo umbral se desmantele
como lata a um tiro de verbo.
Tão químico instante ao cubo o torne. Ou sal se torne.
Poema absoluto é um buraco negro vérbico.
Nenhuma mensagem ou luz que o adentre
ou constitua dele saia... é o poema.
E de suas bordas irrespiráveis
tudo se transforma
(inclusive estrofes próximas).
Deforma o sentido da palavra
vizinha ou do leitor desavisado.
Estando estabelecido de modo unívoco
inquestionável, límpido ou não, mas
definitivo ou eterno o sentido, o poema
jamais será absoluto, porém relativo
elementar como o céu contingente.
Como o instante (incerto) de um átomo
é o poema absoluto... equívoco vital.
A disposição e toda sua equivocidade.
de átomo da palavra é absoluta.
Constitui poema absoluto um equívoco
conjunto de palavras abstratas ou não
de sentidos probabilistas infinitos.
Visa a poesia à produção do mais
imprevisto verbal possível.
Poema é o lugar do espaço da página
(átimo do sítio da alma ou láudano)
em que se dê brusco equívoco
salto verbal qualitativo possível
sobre pobre lauda branca.
Pode-se reconhecer ou não pela pose
das palavras no texto indevido a devida
ou não presença poética absoluta.
Pois a posição imposta pelo poeta
à molécula da palavra, à configuração
sintagmática é essencial ao poema.
Como um estranho objeto quase estrelar
(quásares) inverossímil o poema.
Como incômodos e insalubres
portões incandescentes do inferno
é o poema vermelho absoluto. (Só luz).
Luz impiedosa. O plasma, seu sintagma férreo.
Do poema absoluto, restam ângulo esquecidos
no limbo da página. Além do vazio
absoluto de sentido dotado de mínima
coerência ou sem dúvidas.
É o vazio flutuando normalmente (como libélula lenta)
certo momento vital de poema absoluto.
Vazio submetido a um campo de palavras.
Intenso como um dilúvio branco.
É a redação radiante ou radiância
de um radioativo verbo que o possui o texto.
A entropia verbal do poema absoluto
é ímpar. E vitalmente invoraz
ferocemente sincera, visceralmente apta.
Jamais minuenda tal entropia casta.
Como cifra que seja, poema absoluto
gerável de quaisquer temas
mesmo os impossíveis ou nenhum
dos possíveis, poema absoluto produz
contém ou incontém um noumenon (Kant)
pesado de narrativas irreais ou puras
que indeterminam ou não sua entropia
verbal ainda indefinida porém real.
Impregnado de seu próprio sangue original
velino se oferece à maciez do poema.
E conserva em si toda a mecânica do equinócio.
(Segundo Perse).
ADENDO: Para chegar ao poema ou a seu absoluto
levante-se de mesa fixando com dolo
e dolorosamente a vista intensa
no papel em branco, limbo do poema.
Mantendo o focinho em riste vital.
Isso ao invés da sesta deitada.
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