Os ossos do verão expostos
(como vagina ou orvalho)
à sombra do monturo do amor
pareciam fêmur do sapo
a clavícula da primavera
a solidez da nuvem invernal
o céu vagaroso de julho
(ave césar do sabiá)
o peso do outono no rosto.
Oboés luzidios à vista dos ouvidos.
Dâmocles olha de soslaio
a navalha de Occan
afiada como a lâmina da alma.
Teseu segue a fio novelo
de Ariadne que o trai
na novela grega (trágica ou triste como Electra).
Adão comeu Eva e a maçã
e se não se deu mal enjoou logo
desejou figos ou jacas-vinagre.
Abel filho de Adão e Cain, da serpente
engalfinhados alteraram
a genética original.
(E ao crime de desobediência civil e divina
e assassinato).
E essa luz estranha que se instala
nos pátios antigos junto a madressilvas
no coração da palavra coivara
Mario Benedetti indaga?
E VCA questiona: por quê?
não interrogar constelações?
Mãos que ouçam
olhos que palpem
lábios que vejam.
a palavra poética
A comarca dos rumos
de insólitas certezas
e atrozes crisálidas
poesia demarca.
Rigor de rosas cor ébria apura
etapas de pétalas passadas
se chove rima
rosa com coisa aquosa
parecem preces gestos de uvas
pois de visões aromáticas e emboscadas
de imagens vive a palavra
e não adianta exumar
intermitências do outono nos olhos
rasgando sulcos nodosos manchando
de tempo a cútis heroica
ráfagas de vento vestindo as ruas
e avenidas imóveis da couraça
do aço da alma urbana
tímpanos destroçados
dos cafés etíopes
às entranhas dos pátios
só resta o movimento alado
do último pássaro
municipal.
II
O que seja oculto ou íntimo às coisas
deve manifestar-se pelo verbo
no deserto da página
(leito órfico da maiêutica da palavra
à beira do berçário da imagem).
Para apreender-se o absurdo
(parente do absoluto) deve-se
investigar o que jaza (ou vaza)
além de toda cabal claridade
o que seja substância verbal
sem pátina, detrito, agravo
de simulacro presença exausta.{jcomments on}






