Lorca ou o pranto longo da acéquia, rosas
arremessadas da dor, tumulto de papoula, volúpia do luar
coro de estrela dalva, garganta de guitarra
alba de cor úmida, grito de gnomo, olhar de dália rastejando
num jardim lúbrico e fúnebre
rastro que vinhos velhos deixam
(quando na tina rastejam
o mosto engalanado das unhas do carvalho)
ao cair dos mantéis noturnos
das catracas da alma derramar
para o odre da canção
(das veias de Sevilha)
Canção que vence insuperável
ponte que jaz entre desejo e realidade
alatargado canto estendido desde extremos
aos confins da palavra revolver
aclimatando delírios vivos
Aroma largo de camélias brancas dispara
do vazio pleno flechas apodrecendo
alvo branco
do verbo que é rosa e repousa
no coração do ditirambo.
Poema de lorca
o da guitarra flamenga
o da penumbra cigana
o poeta da Graça e de Granada
que a palavra despeja
da lapela do humano
nas páginas da alma
Lorca ou o sangue que mora no martírio
canção que late no coração do tempo
poema que uiva da boca do mundo
sangue
que é arroio do Guadalquivir.






