Não era a voz do amor
(que é mudo e infinito)
era a da carne
que gritava e era tênue
frágil como uma noite de cristal ou corça de louça
e efêmera como o êxtase de um cisne.
Naquela noite lábios incessantes se sugavam
e sibilantes eitos de saliva se ouviam (do seio).
Éramos livres
porque o desejo rompera todas as peias.
A noite estava possuída de seus demônios
e os corpos ébrios de posse e alucinação.
Nu catre de cetim engatados
a volúpia neles engastada como pérola sedenta.
Gemidos pareciam sílabas
e nenhum hiato os apartava.
Cegos só se viram um ao outro
sob o lasso fulgor do gozo
sobre o ínfimo sítio da cama
que era infinito.
Corpos da alcova libertos
sem os cadeados do medo
lassos os elos do respeito valia só
a dignidade do desejo.
Cardos ardentes nus uníamos
liames de amor sublime
enquanto noite enlouquecida
velava nossa última volúpia.
Morrer é ir para distância maior.
A poesia é a palavra do acaso dado.
Cada um está só no coração da terra
trespassado por um raio de sol...
e de súbito é noite.
A Salvatore Quasímodo, poeta italiano
Prêmio Nobel de literatura pela obra poética.






