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Dom, Abr

destaques
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Não era a voz do amor

(que é mudo e infinito)

era a da carne

que gritava e era tênue

frágil como uma noite de cristal ou corça de louça

e efêmera como o êxtase de um cisne.

 

Naquela noite lábios incessantes se sugavam

e sibilantes eitos de saliva se ouviam (do seio).

 

Éramos livres

porque o desejo rompera todas as peias.

 

A noite estava possuída de seus demônios

e os corpos ébrios de posse e alucinação.

 

Nu catre de cetim engatados

a volúpia neles engastada como pérola sedenta.

 

Gemidos pareciam sílabas

e nenhum hiato os apartava.

 

 

Cegos só se viram um ao outro

sob o lasso fulgor do gozo

sobre o ínfimo sítio da cama

que era infinito.

 

 

Corpos da alcova libertos

sem os cadeados do medo

 

lassos os elos do respeito valia só

a dignidade do desejo.

 

Cardos ardentes nus uníamos

liames de amor sublime

enquanto noite enlouquecida

velava nossa última volúpia.

 

Morrer é ir para distância maior.

 

A poesia é a palavra do acaso dado.

 

Cada um está só no coração da terra

trespassado por um raio de sol...

e de súbito é noite.

 

 

A Salvatore Quasímodo, poeta italiano

Prêmio Nobel de literatura pela obra poética.

 

Murilo Gun

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