06
Seg, Abr

destaques
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(poema confessional 3)

                             ao ilustre e profundo Daniel Santiago

           ( este poema é um estado íntimo

                          exposto sem a pirotecnia tétrica do verso:

                                          o púbis do id exposto na página

                                          a publicação do íntimo. Para a leitora

                                          eco, espelho, fuga, reverberação

                                          do verbo como uma cápsula da alma).

 

Lua fria, ctônica, campestre

de pedra interplanetária, irmã esma

lasca de terra, seixo que rola, rocha flutuando

barro redondo que me roía a alma (levante do desejo)

amante como cadela desolada da noite

distante como uma manga ou um beija-flor

relva enrolando-se na mão da brisa

rouxinóis espetados nos espinhos da rosa

curando-se no topo de lápides incólumes

cujos mortos esquálidos (de que é bandeira, cateto, falo)

sobre quem se espetam silenciam como pedras

e o vazio da boca abre como espátulas tardias

mortos cujo desespero está devidamente enterrado

cujos rostos estão vorazmente esquecidos

(por vastos letes mastigados como amêndoas pálidas)

devoradamente dissolvidos por ácidos vermes precisos

o supurado olhar decadente e moído

pelo rolo indecente das horas coagulado

o rosto da lua esquerda escorado num banco

(desmonetarizado) de rude praça de mármore pilhado

cavo como o som do estertor (esgar agônico)

escapando de bocas agonizantes

atiçando ouvidos moribundos

o amor arrastando atrás de si a dor flutuando

em ondas truculentas e velozes capelas sem limites suculentos

 

sinos assassinando o céu silencioso de abril

rumores corroborando a aura de ouro falido

dos homens cujo sonho mais plástico é um aurora murada

a dor de ser semente (podada) gangrenando lentamente

nomes picados e repicados (numa bacia de navalhas noturnas)

apregoados ao vazio dum púlpito abandonado num claustro dobre

como trapo velho, ou bronze de pranto

a vagina da pedra olhando o céu de basalto fugitivo

vazado de pássaros, incrédulo céu de madrepérola vencida

a lua gótica e meiga abandonada na calçada esquerda

da rua enlouquecida de um ministério ou penitenciária surda

a canícula mordendo os calcanhares de aquiles nus

dos poetas líricos de hoje em dia, vates infeccionados

acabrunhados dos próprios perfeccionismos

o poeta crendo na geometria doce de Descartes

o temor de ser crédulo derrubando rumores fiéis (ou civis)

as portas fechadas do paraíso, reluzentes gonzos rindo

partículas de Deus reproduzidas (divamente ou não) por

aparato ímpio, surda engrenagem (e solertes anjos cibernéticos)

porque submersas nas veias do mundo, abóbadas enterradas

botija de elétrons, corrida de prótons e mésons (liça atômica)

nuvens místicas cobrindo o sexo das estrelas

himens de meninos e meninas expostos nas igrejas

varais sacrílegos desfraldando o escândalo

a lua flutuando (vadia) como alta prostituta

trevas incontroláveis lançando

sobre os olhos ocos dos homens

sua íris cadavérica dançando lamentos

o metal dos olhares fermentando ventres

a fogueira dos círios devorando o arbítrio

a cera do voo desenhando cotonifícios

a chama farmacêutica inundando os estribos

a vagina da casamata estuprando o bendito

a certeza crótalo galvanizando céus

a confissão do poeta estrangulando o inferno

(os outros gargalhando sobre os detritos do paraíso

enchendo de mijo o lavabo recuperado

dos destroços do éden

                                      depois do tropel divino).

 

Murilo Gun

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