(poema confessional 3)
ao ilustre e profundo Daniel Santiago
( este poema é um estado íntimo
exposto sem a pirotecnia tétrica do verso:
o púbis do id exposto na página
a publicação do íntimo. Para a leitora
eco, espelho, fuga, reverberação
do verbo como uma cápsula da alma).
Lua fria, ctônica, campestre
de pedra interplanetária, irmã esma
lasca de terra, seixo que rola, rocha flutuando
barro redondo que me roía a alma (levante do desejo)
amante como cadela desolada da noite
distante como uma manga ou um beija-flor
relva enrolando-se na mão da brisa
rouxinóis espetados nos espinhos da rosa
curando-se no topo de lápides incólumes
cujos mortos esquálidos (de que é bandeira, cateto, falo)
sobre quem se espetam silenciam como pedras
e o vazio da boca abre como espátulas tardias
mortos cujo desespero está devidamente enterrado
cujos rostos estão vorazmente esquecidos
(por vastos letes mastigados como amêndoas pálidas)
devoradamente dissolvidos por ácidos vermes precisos
o supurado olhar decadente e moído
pelo rolo indecente das horas coagulado
o rosto da lua esquerda escorado num banco
(desmonetarizado) de rude praça de mármore pilhado
cavo como o som do estertor (esgar agônico)
escapando de bocas agonizantes
atiçando ouvidos moribundos
o amor arrastando atrás de si a dor flutuando
em ondas truculentas e velozes capelas sem limites suculentos
sinos assassinando o céu silencioso de abril
rumores corroborando a aura de ouro falido
dos homens cujo sonho mais plástico é um aurora murada
a dor de ser semente (podada) gangrenando lentamente
nomes picados e repicados (numa bacia de navalhas noturnas)
apregoados ao vazio dum púlpito abandonado num claustro dobre
como trapo velho, ou bronze de pranto
a vagina da pedra olhando o céu de basalto fugitivo
vazado de pássaros, incrédulo céu de madrepérola vencida
a lua gótica e meiga abandonada na calçada esquerda
da rua enlouquecida de um ministério ou penitenciária surda
a canícula mordendo os calcanhares de aquiles nus
dos poetas líricos de hoje em dia, vates infeccionados
acabrunhados dos próprios perfeccionismos
o poeta crendo na geometria doce de Descartes
o temor de ser crédulo derrubando rumores fiéis (ou civis)
as portas fechadas do paraíso, reluzentes gonzos rindo
partículas de Deus reproduzidas (divamente ou não) por
aparato ímpio, surda engrenagem (e solertes anjos cibernéticos)
porque submersas nas veias do mundo, abóbadas enterradas
botija de elétrons, corrida de prótons e mésons (liça atômica)
nuvens místicas cobrindo o sexo das estrelas
himens de meninos e meninas expostos nas igrejas
varais sacrílegos desfraldando o escândalo
a lua flutuando (vadia) como alta prostituta
trevas incontroláveis lançando
sobre os olhos ocos dos homens
sua íris cadavérica dançando lamentos
o metal dos olhares fermentando ventres
a fogueira dos círios devorando o arbítrio
a cera do voo desenhando cotonifícios
a chama farmacêutica inundando os estribos
a vagina da casamata estuprando o bendito
a certeza crótalo galvanizando céus
a confissão do poeta estrangulando o inferno
(os outros gargalhando sobre os detritos do paraíso
enchendo de mijo o lavabo recuperado
dos destroços do éden
depois do tropel divino).






