(enquanto endecassilabo perco
o fecho do soneto, rimo sina com desdita)
Sou poeta esconso, insosso
com esse de moço, um fosso
daqueles que sonham com estrelas decaídas
e fede como desgosto
poeta descativante e estrábico
à verdade que baila nos lábios
e nas bancas de jornais empoeira
daquele sulfuroso, arbitrário, esdrúxulo
como chaveiro ou bisqui quebrado
poeta imerso nas catervas, devoto de aviários
das pedreiras da imagem presidiário noturno
anuviado de incisos, envenenado de incensos
de sentido cansado
dos decretos da gramática aos tomos do intestino
tudo se faz excremento rico e merece apreço (e prece merde Rimbaud)
segundo o poeta a poesia sarja furúnculos coletivos
réu do crime de não ser métrico
praticante da rima foragida
infiel da igreja do sentido
no altar da ordem sintática nunca rezo
Tudo me condena ao inumerável exílio
longe dos amigáveis adjetivos
poeta das margens esquerdas
sigo meu cômodo destino com uma parca (à porta)
e pelos becos brancos peregrino tão sem rumo
quanto cubos de albumina ática me intima
endecassílabo anapéstico detesto, odeio
anistias do ritmo sincopado
dos poetas que extasiam o populacho
(e alvoroça poleiro das sonhadoras)
não obedeço às leis do pêndulo semiótico
às idiossincrasias do metrônomo
às jurisprudências das rimas e dos acentos rijos
sou ocioso e brutal como Rimbaud
alho se rimo com bugalho
olor alastra-se (valha-me deus parnasiano!)
pelas páginas do livro vizinho (vazado signo)
aplastra-me desconsolo lírico
e se as buganvílias não gritam
entristeço magnólias
(estupro orquídeas).
Torço pescoço de begônias, estrangulo lírios (com o metal do terço).
Não endecassilabo confesso eu pois
endecassilabar não é meu ofício.
(Mereço absolvição? Amém)
Não urdo os sonetos do futuro
nem planto bananeiras na rede verbal
ao balanço das brisas de setembro chuvoso
não resisto e como uma boa broa de milho.
Soneto tão nosso, tão nobre partejo
não o mereço (meço), mestria me falta com força
o gênio da língua, o estilo do tempo, o prestígio
(não o cacau ou dólar de lasanha)
do sintagma me condenam a nada
ao asilo de uma descasa
tesouros métricos espolio com facilidades invictas
delapido ritmos, números, formas, temas, cenários
e hábitos de monges prescritivos
não me rendo a contagens ou velocímetros de sílabas
nem dedilho os mananciais da língua
as veleidades do estilo
rima de ponta de língua (ou do dedo) não cometo
íngua no saco em pé não me obriga
a andar de cócoras ou entrar num supetão
ou fugir de portas abertas para janelas de ostras.
Tenho dito (e não assino
sou suspeito assassino
de poemas sem destino).
(Enquanto endecassilabava perdí
o fecho de ouro e a pulseira do soneto)






