06
Seg, Abr

destaques
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  (enquanto endecassilabo perco

 o fecho do soneto, rimo sina com desdita)

 Sou poeta esconso, insosso

                   com esse de moço, um fosso

daqueles que sonham com estrelas decaídas

e fede como desgosto

poeta descativante e estrábico

à verdade que baila nos lábios

                   e nas bancas de jornais empoeira

daquele sulfuroso, arbitrário, esdrúxulo

como chaveiro ou bisqui quebrado

poeta imerso nas catervas, devoto de aviários

das pedreiras da imagem presidiário noturno

anuviado de incisos, envenenado de incensos

de sentido cansado

dos decretos da gramática aos tomos do intestino

tudo se faz excremento rico e merece apreço (e prece merde Rimbaud)

segundo o poeta a poesia sarja furúnculos coletivos

réu do crime de não ser métrico

praticante da rima foragida

infiel da igreja do sentido

no altar da ordem sintática nunca rezo

 

Tudo me condena ao inumerável exílio

longe dos amigáveis adjetivos

poeta das margens esquerdas

sigo meu cômodo destino com uma parca (à porta)

e pelos becos brancos peregrino tão sem rumo

quanto cubos de albumina ática me intima

endecassílabo anapéstico detesto, odeio

anistias do ritmo sincopado

dos poetas que extasiam o populacho

(e alvoroça poleiro das sonhadoras)

não obedeço às leis do pêndulo semiótico

às idiossincrasias do metrônomo

às jurisprudências das rimas e dos acentos rijos

sou ocioso e brutal como Rimbaud

alho se rimo com bugalho

olor alastra-se (valha-me deus parnasiano!)

pelas páginas do livro vizinho (vazado signo)

aplastra-me desconsolo lírico

e se as buganvílias não gritam

entristeço magnólias

(estupro orquídeas).

Torço pescoço de begônias, estrangulo lírios (com o metal do terço).

 

Não endecassilabo confesso eu pois

endecassilabar não é meu ofício.

(Mereço absolvição? Amém)

 

Não urdo os sonetos do futuro

nem planto bananeiras na rede verbal

ao balanço das brisas de setembro chuvoso

não resisto e como uma boa broa de milho.

Soneto tão nosso, tão nobre partejo

não o mereço (meço), mestria me falta com força

o gênio da língua, o estilo do tempo, o prestígio

(não o cacau ou dólar de lasanha)

do sintagma me condenam a nada

ao asilo de uma descasa

tesouros métricos espolio com facilidades invictas

delapido ritmos, números, formas, temas, cenários

e hábitos de monges prescritivos

não me rendo a contagens ou velocímetros de sílabas

nem dedilho os mananciais da língua

as veleidades do estilo

rima de ponta de língua (ou do dedo) não cometo

íngua no saco em pé não me obriga

a andar de cócoras ou entrar num supetão

ou fugir de portas abertas para janelas de ostras.

 

                                            Tenho dito (e não assino

                                            sou suspeito assassino

                                            de poemas sem destino).

 

(Enquanto endecassilabava perdí

o fecho de ouro e a pulseira do soneto)

 

 

Murilo Gun

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