(poema filosófico e humano
rente à axila de anjo)
À Morte
Queda dos dias já submersos
na trama inamovível do passado
na pátina do que não cessa nem volta
íntima memória do abismo
(memória que resiste ao tempo e o devora
que suspende o fluxo e a deriva recupera)
busca ao tempo partido
(trânsito despedaçado)
a imagens tão nuas que olvido
abate como a pombo tranquilo
ao dissolvido instante onde não haja fuga
retorno a tardes consumidas
pelo voraz abandono, descaso das horas
a coisas do empedernido coração
imersão n’água antiga inacabada ainda
ao perfumado passado da narina ir-se
submersão vertical violento finir-se
introspectar-se da carne
compactar-se do espírito.
procura das sete faces inertes ou ermas
de máscaras gastas avessas
de atos e gestos que sacolejem o espírito
de enigmas maduros torturados abertos.
Sensação do incorruptível dardejar da vida
no rosto de cada nanossegundo
no poro de cada biela de lembrança
no pulsar do sangue sob guante
da emoção do minucioso reviver da trégua
dentes do incisivo tempo cravados
(como pregos no caixão) no osso insolúvel do espaço
onde medra paixão desesperada
impetuosamente à tona desencarnada
solta à súbita rajada das horas
força da farpa dardo do alvo boca da sina
impresumida trama
que o acaso delineia
a partir da data do choro
para a do túmulo
(campa definitiva
de toda criatura).
lince do olhar faminto panteras do espírito
em regozijo lento rasgar de tigres
(que se nutriam de nossas utopias)
animal do tempo em tocaia árida presa
do instinto que não separa hora do trânsito.
(O mundo existe para conduzir ao Livro
– um livro não começa nem termina, simula).
Mallarmé
Selvagem e ubíquo abate dos pêndulos
horas de areia desmoronando
tropel sem peias da besta cronológica
inaugurando o trânsito cruel das coisas
coração arrancado do escombro
víscera do abandono
rumor de fêmur do escuro esqueleto de Deus
exposta como fratura Sua sede da criatura
antes navegante ou ave, cesto de vento
vime do ar preso na ébria gávea
antes habitante
dos desnudos caminhos sem ventre ou rumo
incessante teu corpo atado a mim
por instantes de cetim
avaros momentos vitais impunes
pela comunhão infatigável das horas
pelos laços insubstituíveis do êxtase
pelas indomáveis cadeias da carne
apenas teu corpo agora partido
(tampo da bacia do tempo)
envolto em trevas puras
em panos do passado envolto
pássaro que o proteja
em seu voo hermético
casulo que leve a alma
à crisálida divina.
Teu corpo atado a mim
dividido, devastado
deus errante de teus olhos albergue
iluminando a nudez do mundo
(tornando-a mais ouro menos avara
mais prata menos tortura inata)
tua nudez guia
das horas longas
luz da noite nova
agora apenas teu corpo
prosaico, minúsculo, maculado
não numinoso, aviltado
pelo tempo profano
pela larva do escuro povoado.






