06
Seg, Abr

destaques
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 (poema filosófico e humano

 rente à axila de anjo)

 À Morte

 Queda dos dias já submersos

na trama inamovível do passado

na pátina do que não cessa nem volta

íntima memória do abismo

                 (memória que resiste ao tempo e o devora

                 que suspende o fluxo e a deriva recupera)

busca ao tempo partido

(trânsito despedaçado)

a imagens tão nuas que olvido

abate como a pombo tranquilo

ao dissolvido instante onde não haja fuga

retorno a tardes consumidas

pelo voraz abandono, descaso das horas

a coisas do empedernido coração

imersão n’água antiga inacabada ainda

ao perfumado passado da narina ir-se

submersão vertical violento finir-se

introspectar-se da carne

compactar-se do espírito.

 

procura das sete faces inertes ou ermas

de máscaras gastas avessas

de atos e gestos que sacolejem o espírito

de enigmas maduros torturados abertos.

 

Sensação do incorruptível dardejar da vida

no rosto de cada nanossegundo

no poro de cada biela de lembrança

no pulsar do sangue sob guante

da emoção do minucioso reviver da trégua

dentes do incisivo tempo cravados

(como pregos no caixão) no osso insolúvel do espaço

onde medra paixão desesperada

impetuosamente à tona desencarnada

solta à súbita rajada das horas

força da farpa dardo do alvo boca da sina

impresumida trama

que o acaso delineia

a partir da data do choro

para a do túmulo

(campa definitiva

de toda criatura).

 

lince do olhar faminto panteras do espírito

em regozijo lento rasgar de tigres

(que se nutriam de nossas utopias)

animal do tempo em tocaia árida presa

do instinto que não separa hora do trânsito.

 

       (O mundo existe para conduzir ao Livro

       – um livro não começa nem termina, simula).

                                 Mallarmé

 

Selvagem e ubíquo abate dos pêndulos

horas de areia desmoronando

tropel sem peias da besta cronológica

inaugurando o trânsito cruel das coisas

coração arrancado do escombro

                                     víscera do abandono

rumor de fêmur do escuro esqueleto de Deus

exposta como fratura Sua sede da criatura

 

antes navegante ou ave, cesto de vento

vime do ar preso na ébria gávea

antes habitante

                dos desnudos caminhos sem ventre ou rumo

incessante teu corpo atado a mim

por instantes de cetim

avaros momentos vitais impunes

pela comunhão infatigável das horas

pelos laços insubstituíveis do êxtase

pelas indomáveis cadeias da carne

 

             apenas teu corpo agora partido

                                   (tampo da bacia do tempo)

             envolto em trevas puras

             em panos do passado envolto

 

             pássaro que o proteja

             em seu voo hermético

             casulo que leve a alma

             à crisálida divina.

 

Teu corpo atado a mim

dividido, devastado

deus errante de teus olhos albergue

iluminando a nudez do mundo

(tornando-a mais ouro menos avara

mais prata menos tortura inata)

 

              tua nudez guia

              das horas longas

              luz da noite nova

 

agora apenas teu corpo

prosaico, minúsculo, maculado

não numinoso, aviltado

pelo tempo profano

pela larva do escuro povoado.

 

 

 

 

Murilo Gun

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