À véspera da lua
A Rogério Generoso
A sombra dos objetos alongando-se como hóstia
na haste da encruzilhada depositando seu monturo
percorria a espádua das horas deixando
gerúndios abandonados nas esquinas entre cruzes
na tez marca prolongada espalhando hesitando
vórtice de sal, caudalosa treva gritando
rosário inóspito de avaras palavras tecendo
enraizadas numa árvore de metáforas goradas
além de jardins estocásticos (e gerúndios chorando)
com rosas alquímicas florindo como abelhas
enxameando colmeia de doces ruídos
brotando em forma de buquês automáticos
de jarros ambíguos explodindo autocratas
como quiabos sobre gleba disfarçando
a dor das epistemologias debruçadas na tarde.
Ela via muro saqueado de musgos
respiração do bolor, a vândala
tibieza das coisas totalitárias
objetos acantonados na beira da natureza morrendo
um reflexo do sol filtrado por árvores alemãs
coada pela tarde declinando inclinada
réstia efêmera do sonho solar já estiolada
e agonia das metafísicas noturnas
pela fenomenologia das trevas escoando
ela via noite espúria estatelar-se
ante estábulo de prata da aurora
apto a alojar cavalos do sol
ajaezados de lampejos viris (mas inúteis)
brilho vândalo dos ângulos cremados
(como cera sustentando sonho de Ícaro)
luz esquálida e total derramando-se
da bacia inerte do planeta
na aridez vazia da alma
aberta em posta de peixe miraculoso
(pelo nazareno multiplicado inutilmente).
A nudez da água uiva estagnada
num úmido estribilho de lata
joelhos da náusea beirando
sombra de outubro
estômago das estrelas
glândulas do minotauro
ébrias danças de centauros
percorrendo dezembros sonolentos
disparando louvores ao estilo novo
miudezas do céu
e poeira lustrosa de galáxias
desafiando Deus
por escrito
as tábuas do céu refletindo
os decretos humanos.
Além levante agonizando
ou vestígio de lua prateada
assustando amantes e cavalos íntimos
disparando na pradaria do tempo ímpio
uivando como ervilha amarrotada de janeiro
ou rosto rumoroso de poente desbotado
ébrias cores do crepúsculo revoltando
hinos vermelhos (do pincel de Holderlin lavrados)
e odes pabluescas preparando
o sacrifício do sal residente
do útero encoivarado da terra.
A tarde uma esfera de Confúcio amotinada
pratas céleres, cores furiosas, sono
de pássaros nas estradas (e moitas verdes dos avelozes)
prontas para as pátrias rigorosas do crepúsculo
de sublevadas tintas perorarem
como luzes de abelhas alvejando
colmeias escuras, embriagadas.
Olho de ouro úmido dos espelhos
(que lúbricas penélopes arrebentaram
em busca dos reflexos mais profundos
do sal de suas culpas irremovíveis)
vergastas do lamento
na ágora do lampejo
multiplicado por assembleia de relâmpagos
no ápice do fluxo rosto de outubro
eco deserto pelo divo púbis empilhando-se
gozo de Vênus assediado
pelas espumas do sêmen de Júpiter
desejo desafiando a claridade dos dedos
(seios digitalizados com macio esmero)
multidão de palavras esclerosando-se
indissociadas dos élitros da metáfora de aranhas
orando a sintagmas banalizados da praça
doando seus sais espúrios e suas asperezas
ao nitrato de prata do inóspito
que jaz no espírito prático dos homens.






