06
Seg, Abr

destaques
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 À véspera da lua

 A Rogério Generoso

A sombra dos objetos alongando-se como hóstia

na haste da encruzilhada depositando seu monturo

percorria a espádua das horas deixando

gerúndios abandonados nas esquinas entre cruzes

na tez marca prolongada espalhando hesitando

vórtice de sal, caudalosa treva gritando

rosário inóspito de avaras palavras tecendo

enraizadas numa árvore de metáforas goradas

além de jardins estocásticos (e gerúndios chorando)

com rosas alquímicas florindo como abelhas

enxameando colmeia de doces ruídos

brotando em forma de buquês automáticos

de jarros ambíguos explodindo autocratas

como quiabos sobre gleba disfarçando

a dor das epistemologias debruçadas na tarde.

 

Ela via muro saqueado de musgos

respiração do bolor, a vândala

tibieza das coisas totalitárias

objetos acantonados na beira da natureza morrendo

um reflexo do sol filtrado por árvores alemãs

coada pela tarde declinando inclinada

réstia efêmera do sonho solar já estiolada

e agonia das metafísicas noturnas

pela fenomenologia das trevas escoando

ela via noite espúria estatelar-se

ante estábulo de prata da aurora

apto a alojar cavalos do sol

ajaezados de lampejos viris (mas inúteis)

brilho vândalo dos ângulos cremados

(como cera sustentando sonho de Ícaro)

luz esquálida e total derramando-se

da bacia inerte do planeta

na aridez vazia da alma

aberta em posta de peixe miraculoso

(pelo nazareno multiplicado inutilmente).

 

A nudez da água uiva estagnada

num úmido estribilho de lata

joelhos da náusea beirando

sombra de outubro

estômago das estrelas

glândulas do minotauro

ébrias danças de centauros

percorrendo dezembros sonolentos

disparando louvores ao estilo novo

miudezas do céu

e poeira lustrosa de galáxias

desafiando Deus

por escrito

as tábuas do céu refletindo

os decretos humanos.

 

Além levante agonizando

ou vestígio de lua prateada

assustando amantes e cavalos íntimos

disparando na pradaria do tempo ímpio

uivando como ervilha amarrotada de janeiro

ou rosto rumoroso de poente desbotado

ébrias cores do crepúsculo revoltando

hinos vermelhos (do pincel de Holderlin lavrados)

e odes pabluescas preparando

o sacrifício do sal residente

do útero encoivarado da terra.

 

A tarde uma esfera de Confúcio amotinada

pratas céleres, cores furiosas, sono

de pássaros nas estradas (e moitas verdes dos avelozes)

prontas para as pátrias rigorosas do crepúsculo

de sublevadas tintas perorarem

como luzes de abelhas alvejando

colmeias escuras, embriagadas.

 

Olho de ouro úmido dos espelhos

(que lúbricas penélopes arrebentaram

em busca dos reflexos mais profundos

do sal de suas culpas irremovíveis)

vergastas do lamento

na ágora do lampejo

multiplicado por assembleia de relâmpagos

no ápice do fluxo rosto de outubro

eco deserto pelo divo púbis empilhando-se

gozo de Vênus assediado

pelas espumas do sêmen de Júpiter

desejo desafiando a claridade dos dedos

(seios digitalizados com macio esmero)

multidão de palavras esclerosando-se

indissociadas dos élitros da metáfora de aranhas

orando a sintagmas banalizados da praça

doando seus sais espúrios e suas asperezas

ao nitrato de prata do inóspito

que jaz no espírito prático dos homens.

Murilo Gun

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