Abelhas se enturmam na parra
corroboram melodia de colmeia, mel de animal ternura
e laço melífluo criam nas fortalezas aceradas
com ameias curvas e soldos íngremes muralhas nuas
flor d’água ergue-se do jardim duma lágrima
enquanto no pátio ecoam cães latinos
e vozes desertas de rosas afegãs pendem dos lábios
da cidade dos jasmins embandeirada de tâmaras sangrentas
um dois três flibusteiros azuis invadem alcovas
roçam virgens severas amoras e pirateiam
honra dos duques com gestos baixos, obscenos ladros
a cada cota de luz resplendem almas
camaleões recolhem sol de suas malhas
matizados de luz prismática sob amarela couraça
e se adaptam tediosos e perfeitos
a suas dúvidas epidérmicas a seus nichos acadêmicos
cigarras apocalípticas residem nos resíduos das cascas
dos eucaliptos barítonos de Gravatá
oferecem aos livres prados belas laringes
teatros de suas orquestras inarmoriais
do silencioso manto do meio-dia abrem-se sinfonias inacabáveis
como champanhes de pássaros óperas de uma nota só que vento afine
e percorram teclado de tédio das tardes nordestinas
touros auríferos dirigem-se vagarosamente a vacas hipócritas
e mugem vaidades insidiosas ao longo das pegadas dos cactos
musculosos beija-flores instalam nas pálpebras das amapolas
suas hélices diáfanas, matizes cautelosos, velozes esôfagos
timbale dos rouxinóis é amarelo
seus metais vêm do sangue de Hélios
avícola turbina da crônida estirpe
criada da bigorna aurífera do inferno de cravo temperado
sob batuta do isócrono martelo de Hefestos
palavras desmaiam do peito do poeta em dor aberta
seis pássaros passeiam no abdome da rosa relativa
brusco jovem olha outono triste, sons verlanianos velam
ruidosos corpos amantes, esplêndida
paz que orgasmo empunha
e a pequena morte aloja-se sob lençóis satisfeitos
atros tonéis de tristeza derramando-se ricocheteiam
dos olhos minerais pela sede da visão atiçados
corroídos do rumor da bursátil tenda
onde impera memória de leilões lascivos
em que himens íntegros alcançaram
no auge das cotações senis
preços mais graves e dourados
lances mais rígidos ou crédulos
no viril oásis da óssea verdade
ou na bolsa mundana dos prazeres humanos
gotejam lascas do tempo por entre botijas de léguas ligeiras
sombras angulosas assomam
a pátios sonolentos e agrários
e acordes cercam o sono do verbo
hipocraticamente juro pela bíblia da verdade jugular
ajudar as mazelas do mundo
ao lado das sibilas, grifos, hipogrifos
esmeraldas obesas e balelas
diodo da manhã ecoa como chumbo em fuga
cobre da tarde enterra-se no meio-dia e selo
de uivo e lua estampa-se no corpo da noite
onde bronzes dormem sob peso dos sulfetos da sombra
ante torrentes de caudalosos relâmpagos luz
erótica se erige e herética estiola amantes
ante pedestal postam-se púbis egrégios escandidos pelo orvalho
e pelo sêmen dos recênviros percorrido
biombo de gueixas abalroa urgente paisagem
deixam seus unguentos em nossos rostos gratos
taciturna madrugada esculpe de madrepérolas cúbicas
pratica vultos, sonega brilhos abruptos, quebra orquídeas súbitas
(lua leitosa derrama úbere sobre
soberbo coração de algum homem
e via crucis do sangue devassa
mundo sagrado das causas)
sensação de musgo alitera sulfúrico forno da avenida
cor de âmbito oral apunhala arbusto, demole meio-dia
tudo insurge-se contra o que ressurge, vanádio vela o espírito, atanor chora
lágrimas de gusa assaltam abelhas, lances de búzios suspendem ocasos
Deus emociona-se com o caos criador, cruz quântica
ou semiótica de Sua lavra
Sua lágrima acende coivaras turvas, despedaça alvoradas
e limbos onde silêncio se recolhia monacal e dúbio
apura lagares, dissolve arenas e em haréns aloja verdade jóia impune
Sua presença antecede a hangares escuros
veio antes do segundo, enternece ouro e sombra
acalenta lamentos obscuros, supura curvos uivos
suprime evos ístimos, pecados duradouros, ilhas dissolutas
acalanta tulipas, capítulos e tratados organolépticos
que flamejam nos jardins góticos floridos de arcos e touros estocásticos
entre pétalas e avencas cínicas
ávida a vida se divide em dádivas noturnas, idas e vindas a Saturno
árduos convescotes em Marte, folias loucas de Vênus
vida se resume a desenganos, silos de incerteza, pústulas e estrelas
se divide em doses desiguais, lúbricos ângulos, épuras concupiscentes
e sutras terminais, cenas ríspidas e panos demorados como o desespero
mas multiplica hora e cismas de mim e da tribo
do acme das catedrais uivam florões magníficos
e célicas lágrimas espalmam
como leques áticos ou palmas solenes
como palmos de pedra ou naipes de copa
de vazios e infinitos é a vida diária tecida
com agulhas lentas do orgulho da criatura
de não ser e ter sido fruto de tramas profundas
(e traumas sem nome, sonhos de Freud)
de palheiros íngremes como seios róseos ou aurora em viço
é forjada a vida a cada ímpeto ou pausa definitiva
de imenso ilumino o mínimo de sombras a mais
e do rastro de bisões faço meu percurso arcaico
lentamente noturno pela alma do mundo
peregrino do absurdo, do ignoto último assecla
pomos cordatos, sais indecisos, sinais mortos, tropos
tempo com que não me mutilo mas me ultimo
de cujos vasos cônicos extraio
luz líquida, sêmen alvo, cúbico
com que não me atrevo de iluminar-me, muro
e multiplico horas e sismos de mim mesmo
a esmo e síncrono poluo populações do tímpano
com poema rendo desafios
arranco fórceps escuros
preparo trevas puras
abstrato alumbro com espectral candura
extirpo claridades sem dentes
peçonha dos axiomas lapido
escleroso lógica diária
signos podres apunha-lo
extirpo os rins do infinito, centuplico
leviandades e remorsos
civilidades daninhas deturpo
nexos do sim abomino
perscruto o trono da relva
nutro de ervas sumos ímpios
petúnias suprimo
pelo bem da poesia.
2011






