05
Dom, Abr

destaques
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Recife, cidade adiada

submersa em sua mágoa

espaço sem corpo

só pedra, rio e goivo

trapo de sono

ventre de cio

plumas de cães sorrindo

lábios de brisa e lâmpada

de lua bebendo

capibaríbica voragem

 

 apocalipses aquáticos

beirando o desespero das margens

água de ninguém

vento cangaceiro em congresso

na várzea do Capibaribe

manguezal Cardozo

enquanto caranguejo beija lama

de Chico balança a grama, o canto

titubeia arco lírico  das pontes

louco pêndulo

úmido encarcerado no torpor

emparedadas ruas pelos rios

encarcerado sol na aurora das águas

esgotada cútis

que edis conspucam

sucessivamente o voto

esconde o vício

escande o viço

das cadelas que enxmeiam

a rua da Palma

sabe a luxúria e a

de latim decora o frevo do espírito

a lanheza da cidade bifurcada no vestígio

o bulício das abelhas no pão doce do Pátio

de São Pedro dos Clérigos bêbados e enamorados

parece céu na azáfama da Criação

a parafernália do Senhor espalhada no chão

do limbo entre ervilhas e cebolas divinas

a tarde debruçada sobre

pontes de areias movediças e santas austeras

fragmentos da manhã despedaçada

raios de sol pugitivos

do útero do ocidente

buscando devoto abrigo

da cruz do Patrão à Igreja dos Martírios

o quem-me-quer da aurora

(mulher vestida de sol)

rua em que a imagem submersa

dos edifícios se avessa

e peixes habitam vestíbulos

como no poema que João Marques

cravou da sacada do Plaza que olha a Ponte

a reexistir o Porto

e sua sombra visitadora

das estivas e dos amantes

que a vertigem busque precipício

e o poema devore solstícios

enquanto urra

o muro de arrimo da solidão

da moça, emparedada em rua já velha

(mas não tanto como aquela

que nasce na Estação Central

e se derrama no Pátio da Santa Cruz

(que me proteja

incursão por espaços tão bravos)

cidade latina, paço de febres

colo de fedentina, sítio e sarjeta

onde atirar ídolos

onde abeirar-se do delírio

e conjugar espantos quando

desatino dormir com marquises

Recife medita e mergulha

(alinhava e palmilha)

no dilúvio do amor sem data

que trastes filhos o dedicam

a cidade reza

duas vezes ao dia

rosário de dores e rebeldia

nas tantas igrejas

e vária sacristia

que a magnificam

e os nus extasiam

beije adro que fiéis pisoteiam

com orações de milho ajoelho

a boca carpindo vaticínios

e preces de luz sem alumínio

sua saliva demore

nas pedras da avenida

Conde da Boa Vista

(em minha veia ninja Recife urra

viçam suas avenidas adúlteras

sombras iluminam nome, regaço

e território da alma urbana

depauperada pela violência

e pela propaganda).

  

Recife marítima e imperturbável

parede e meia com Olinda

a colecionar fantasmas (e levezas)

na Cruz do Patrão (vultos rezam

e dão a mão ao mar)

e na mandala do Marco Zero

(que erótico Brennand colinizou

com falos monumentais (glandes ítalas

meninos arrogantes e vitais)

Cícero procura noturna saída

do labirinto pictórico, da pitagórica pedra

retórica de cores e formas subversivas

que sua visão do mundo cravou no chão da vida

eriçados arranha-céus de pedra (césarlealina)

pontes verticais para o infinito do arrecife apontadas

Recife que mesura o futuro

da palma da mão pluvial

da ponte Maurício de Nassau vejo

futuro passado, a passado (batavo ainda)

perambulando pelos lusos dias

e da barcaça de peixes olhando o presente fisjo

poema que cravo na página

como martírio de palavras

coroa que Mauro Mota deixou

viva na Rua do Imperador.

 

 

Murilo Gun

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