Recife, cidade adiada
submersa em sua mágoa
espaço sem corpo
só pedra, rio e goivo
trapo de sono
ventre de cio
plumas de cães sorrindo
lábios de brisa e lâmpada
de lua bebendo
capibaríbica voragem
apocalipses aquáticos
beirando o desespero das margens
água de ninguém
vento cangaceiro em congresso
na várzea do Capibaribe
manguezal Cardozo
enquanto caranguejo beija lama
de Chico balança a grama, o canto
titubeia arco lírico das pontes
louco pêndulo
úmido encarcerado no torpor
emparedadas ruas pelos rios
encarcerado sol na aurora das águas
esgotada cútis
que edis conspucam
sucessivamente o voto
esconde o vício
escande o viço
das cadelas que enxmeiam
a rua da Palma
sabe a luxúria e a
de latim decora o frevo do espírito
a lanheza da cidade bifurcada no vestígio
o bulício das abelhas no pão doce do Pátio
de São Pedro dos Clérigos bêbados e enamorados
parece céu na azáfama da Criação
a parafernália do Senhor espalhada no chão
do limbo entre ervilhas e cebolas divinas
a tarde debruçada sobre
pontes de areias movediças e santas austeras
fragmentos da manhã despedaçada
raios de sol pugitivos
do útero do ocidente
buscando devoto abrigo
da cruz do Patrão à Igreja dos Martírios
o quem-me-quer da aurora
(mulher vestida de sol)
rua em que a imagem submersa
dos edifícios se avessa
e peixes habitam vestíbulos
como no poema que João Marques
cravou da sacada do Plaza que olha a Ponte
a reexistir o Porto
e sua sombra visitadora
das estivas e dos amantes
que a vertigem busque precipício
e o poema devore solstícios
enquanto urra
o muro de arrimo da solidão
da moça, emparedada em rua já velha
(mas não tanto como aquela
que nasce na Estação Central
e se derrama no Pátio da Santa Cruz
(que me proteja
incursão por espaços tão bravos)
cidade latina, paço de febres
colo de fedentina, sítio e sarjeta
onde atirar ídolos
onde abeirar-se do delírio
e conjugar espantos quando
desatino dormir com marquises
Recife medita e mergulha
(alinhava e palmilha)
no dilúvio do amor sem data
que trastes filhos o dedicam
a cidade reza
duas vezes ao dia
rosário de dores e rebeldia
nas tantas igrejas
e vária sacristia
que a magnificam
e os nus extasiam
beije adro que fiéis pisoteiam
com orações de milho ajoelho
a boca carpindo vaticínios
e preces de luz sem alumínio
sua saliva demore
nas pedras da avenida
Conde da Boa Vista
(em minha veia ninja Recife urra
viçam suas avenidas adúlteras
sombras iluminam nome, regaço
e território da alma urbana
depauperada pela violência
e pela propaganda).
Recife marítima e imperturbável
parede e meia com Olinda
a colecionar fantasmas (e levezas)
na Cruz do Patrão (vultos rezam
e dão a mão ao mar)
e na mandala do Marco Zero
(que erótico Brennand colinizou
com falos monumentais (glandes ítalas
meninos arrogantes e vitais)
Cícero procura noturna saída
do labirinto pictórico, da pitagórica pedra
retórica de cores e formas subversivas
que sua visão do mundo cravou no chão da vida
eriçados arranha-céus de pedra (césarlealina)
pontes verticais para o infinito do arrecife apontadas
Recife que mesura o futuro
da palma da mão pluvial
da ponte Maurício de Nassau vejo
futuro passado, a passado (batavo ainda)
perambulando pelos lusos dias
e da barcaça de peixes olhando o presente fisjo
poema que cravo na página
como martírio de palavras
coroa que Mauro Mota deixou
viva na Rua do Imperador.






