Assisto cálice de Elêusis
beber trago de abismo
órfico aborto deletar o instinto
Baltazar cego e estrelas fugindo
grangrena das lágrimas aviltando olhos
engrenagem da luz aberta
como porta de bordel francês
olhar de ventre impuro
silêncio estraçalhado por gritos plúmbeos
atanor resfolegando como monturo
metano digladiando com resíduos úmidos
lixos hospitalares hospitaleiros
ungüentos sufocados no plástico das camisas
que Vênus vomitou da lixeira da vida.
Assisto crepúsculo do logos
e núncio ou oráculo montanhoso
(com sua trombeta de alumínio e estanho nu)
clamar por novo apocalipse
comprimido no Livro de Mallarmé
(páginas onde Deus joga dados com o acaso).
A volubilidade é uma noite na veia
violentas colinas perfumam céu de abril
flauta que Pã abandonou decifra som de ossos e divos úmeros
que de minha estirpe restou como legado ao chão
que nos acatou (e a nossos amaros amores).
A barca da sombra transporta o sopro
para longe da alma, para perto da carne
perto do inferno que vive das veias sem viço
baralho dos guindastes une-se à sombra de gruas avaras
de que são feitas nossas almas e ruas do corpo
contêineres de alento desembarcam
de nossas vidas a cada hora do mundo ínfero (não dos homens)
naipes da sina estão abertos
cartas e mangas pertencem às mãos
(que algum deus nos deu com dedos do gatilho
sem espoleta de perdão).
A disponibilidade da noite é espúria
e o branco ar de tarde se contagia
do mênstruo do ocaso e vomita
elétrons e vírus no regaço noturno
na taça do íntimo do relógio do coração
que bate como escombros no chão.






