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Dom, Abr

destaques
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Assisto cálice de Elêusis

beber trago de abismo

órfico aborto deletar o instinto

Baltazar cego e estrelas fugindo

grangrena das lágrimas aviltando olhos

engrenagem da luz aberta

como porta de bordel francês

olhar de ventre impuro

silêncio estraçalhado por gritos plúmbeos

atanor resfolegando como monturo

metano digladiando com resíduos úmidos

lixos hospitalares hospitaleiros

ungüentos sufocados no plástico das camisas

que Vênus vomitou da lixeira da vida.

  

Assisto crepúsculo do logos

e núncio ou oráculo montanhoso

(com sua trombeta de alumínio e estanho nu)

clamar por novo apocalipse

comprimido no Livro de Mallarmé

(páginas onde Deus joga dados com o acaso).

 

A volubilidade é uma noite na veia

violentas colinas perfumam céu de abril

flauta que Pã abandonou decifra som de ossos e divos úmeros

que de minha estirpe restou como legado ao chão

que nos acatou (e a nossos amaros amores).

 

A barca da sombra transporta o sopro

para longe da alma, para perto da carne

perto do inferno que vive das veias sem viço

 

baralho dos guindastes une-se à sombra de gruas avaras

de que são feitas nossas almas e ruas do corpo

contêineres de alento desembarcam

de nossas vidas a cada hora do mundo ínfero (não dos homens)

naipes da sina estão abertos

cartas e mangas pertencem às mãos

(que algum deus nos deu com dedos do gatilho

sem espoleta de perdão).

 

A disponibilidade da noite é espúria

e o branco ar de tarde se contagia

do mênstruo do ocaso e vomita

elétrons e vírus no regaço noturno

na taça do íntimo do relógio do coração

que bate como escombros no chão.

 

 

Murilo Gun

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