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Dom, Abr

destaques
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 Silêncio  impassível, quase sólido

ultrapassando pausas

                            e brancos sinos parados

                            ultrapassando

colhendo pétalas de gerúndios e amapolas lentas

colhendo da flor do grito

cálice escuro, lume findo

                                      pólens tímidos

                                      cios cinzentos, viços de abelha ilusos

todos os limites

                            do rumor e da pálpebra que soa

                            do sussurro da ofegante uva

                            do estalicido e da traqueia do hino

vencidos como prazo sem ventre

 

data esquecida

num desvão do tempo (num vão de trapo da hora azada) num tampo

da gaveta da escrivaninha do destino

num lavabo lúbrico da madrugada suja

numa bacia de hóstias indigestas

onde lua venha beber tristeza e desprezo

silêncio impassível e célere

excitado como maçã do éden

intransponível muralha em que estrondo desaba

o súbito perde ímpeto

inclinado vaso carnívoro íntimo

do úmido e do imóvel, do vago amigo  cúbico

silêncio que se acumula no clamor

silêncio imprescritível lavrado antes da pausa do poema

 

silêncio culinário, escravocrata do gemido

silêncio vasto, físico, lúgubre da eternidade

do vazio dos temperos intransitivos

da vilania do infinito

silêncio impotente, grito ausente

de nervos velozes e escuro lipídio

que aminoácidos do esôfago

e proteína do nítido não agridem

usina de uivos latindo na alma não demole

silêncio de pássaros mudos

e ecos proibidos

por decretos tíbios

de assembleias escuras

hábito de ser humano.

Murilo Gun

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