Silêncio impassível, quase sólido
ultrapassando pausas
e brancos sinos parados
ultrapassando
colhendo pétalas de gerúndios e amapolas lentas
colhendo da flor do grito
cálice escuro, lume findo
pólens tímidos
cios cinzentos, viços de abelha ilusos
todos os limites
do rumor e da pálpebra que soa
do sussurro da ofegante uva
do estalicido e da traqueia do hino
vencidos como prazo sem ventre
data esquecida
num desvão do tempo (num vão de trapo da hora azada) num tampo
da gaveta da escrivaninha do destino
num lavabo lúbrico da madrugada suja
numa bacia de hóstias indigestas
onde lua venha beber tristeza e desprezo
silêncio impassível e célere
excitado como maçã do éden
intransponível muralha em que estrondo desaba
o súbito perde ímpeto
inclinado vaso carnívoro íntimo
do úmido e do imóvel, do vago amigo cúbico
silêncio que se acumula no clamor
silêncio imprescritível lavrado antes da pausa do poema
silêncio culinário, escravocrata do gemido
silêncio vasto, físico, lúgubre da eternidade
do vazio dos temperos intransitivos
da vilania do infinito
silêncio impotente, grito ausente
de nervos velozes e escuro lipídio
que aminoácidos do esôfago
e proteína do nítido não agridem
usina de uivos latindo na alma não demole
silêncio de pássaros mudos
e ecos proibidos
por decretos tíbios
de assembleias escuras
hábito de ser humano.






