Aqui começa a mulher
aqui não tem fim
só mulher e começo
sem fim
porque mulher não tem fim
é mais que eterna
e infindável em si.
Aqui sua carne esboça o futuro
de porvir é o sangue fêmeo
de alfa seu espírito sem ômega.
O tempo em ti toma alento
quase se ajoelha, teme
que o detrates ou desprezes
pois és maior que ele.
Aqui começa a mulher sem fim
agora a costela é de luz e carne
oco ficou o peito infame do homem
e seu falo sem orgulho sob impulso
de míssil químico para levantar voo sem ventre.
Urze ardendo como um coração pequeno
vento nu lavando desejos
mulher de ventre escarlate pudendo-me
pudor abandonado todo
pão mordido pelos dedos (dos ratos e dos homens)
na avenida principal (main frame)
tetas comovidas com meus beijos úmidos
ruptura das algemas dos temores
amarras esquecidas nas estantes
inúteis dos livros (com pejo)
ágios íntimos, desprezada usura
do corpo sem sentido (ou serventia viva)
torso de música, escabelo partido
chama a desavivar temor dos outonos
à tona das águas brilho leitoso da lua
a lembrar leito frenético do corpo
incêndio das ervas despertas do sono
ventre do tempo, fibras do escuro
tudo a conspirar por nós.
(E o cio dormindo no gozo).
As vísceras do tempo expostas
o baralho de Cronos aberto em copas
na tábua das horas a paisagem crua
da passagem sem ventre ou finalidade
o naipe da duração em uso (suso ou suíno)
às manipulado, todo
o carteado do enigmático Deus
na mesa aberta dos homens
a carnalidade da hora (crucis et cetera)
nós, cromos, urnas, lenho e cerne do trânsito
trêmulo das coisas, a alma
numa cartada insolúvel
o trunfo, a fraude, o blefe de Deus
escancarados sob lâmpada extrema
cítaras esféricas, búzios cegos, salmos, migalhas
de Deus jogo da vida e da morte
não menos cifrado
os fatos da senha (a lauda, os selos)
e sigilosos intestinos do porvir abertos (sem capas)
em copas humanas
efêmeras rodadas de sempre
as cartas do destino esquecidas
na mesa fraudulenta dos homens.
O que se expanda do corpo do lírio
da face da dália, da haste do dolo
de uma flor de velório
o que se espera de uma rosa
e sua murcha sina e breve
o que se inocule de estrelas
num horizonte de eventos negros
(o que a este mar cego se alimente
eternamente)
os gestos do fogo (o berço das chamas
o maiêutico incêndio de Kavafis hebraico
o relâmpago do infinito Heráclito)
é de linho impuro e lento cânhamo sem afago.
é a verdadeira dádiva de Javé xerife do universo
bigbangueando pela eternidade infinita afora
toda a messe do silêncio
todo o mênstruo da aurora
os muros demorados da memória
(erguidos em torno de teu redor escuro)
a seda fecunda da lua sem fervor
os cílios solenes do sol
fagulhas do sal, pomares abruptos
sombras das vésperas, tudo
unta-me de ti, tudo
sobeja-me e completa
tudo é uno e nu em ti.
(Nada sobra de Deus
pois do nada Ele fez tudo
com o sopro do barro, a luz do verbo
a aljava de relâmpagos no ombro).
O poema anterior foi para
debulhar o brilho e dar viço
à esperança do aroma
(que inoculem de estrelas os filhos).






