06
Seg, Abr

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 Alberto Lins Caldas

   Ao  concluímos  este  livro de Vital Corrêa de Araújo, nos perguntamos se  as  palavras  de  um  tempo  mudo  podem  explodir  com  tamanho  vigor  e esmiuçamento do cotidiano como ele o faz.

A resposta está em cada poema, a pedir uma  degustação  com  avidez  de  menino,  a  nos  chutar  a  comodidade  dos  versos fáceis  das  idéias  chulas.  Sua matéria prima  é o  cotidiano, que  ele  esmaga  como  se fosse  uma  massa  de  bolo  até  torná-la  poesia.  O  sentido  coerente  das  idéias  é retorcido,  dissecado  pelo  olhar  anatomista, perito  em  extrair um  sangue  renovado das pedras e sons daquilo que antes vivia no vácuo, mas também nunca o vemos, ao tratar do comum, do simples, ser apenas refletor de coisas, recriador de formas. Sua poesia  não  recria  apenas  o  mundo,  ela  realmente  é  o  verbo  inicial,  vive, mesmo sendo  o mundo-memória,  como  fundamento, uma  existência  à parte,  raiz da  coisa vista e da palavra. Sua poesia faz nascer uma nova concretude.

O  burocrata  e  a  burocracia,  retratados  por  ele  nos  primeiros  poemas,  é  o modelo  platônico  de  qualquer  burocrata  ou  burocracia.  Ele  não  se  satisfaz  em descrever,  mas  em  buscar  a  essência  que,  mesmo  nas  diferenças,  traz  a  radical igualdade  das  partes.  Existe  em  BUROCRACIAL  uma  dialética  especificamente poética  e  uma  metafísica  onde  o  autor  aparece  e  desaparece,  demiurgo  desse universo próprio. Seu método é primordialmente  crítico.

Vital Corrêa de Araújo sabe mastigar sílabas e vogais e ultrapassá-las como no poema  “Murilo  Enegeômetra Mendes Polipoeta’, onde uma  realidade dicotômica  é construída    em  imagens evanescentes, num paraleleo com o sentido comum que as palavras  nos  transmite.  Ele  nos  exige  uma  vida,  no  mínimo,  centenária,  para descobri-lo  na  variegada  floresta  de  sentidos,  imagens,  memórias  que  nunca  são simples  reflexos unos, mas vitrais numa catedral gótica. Existe em cada poema uma tentação  estonteante.  As  palavras  aparecem  mudas,  caladas  como  em  tortura, decepadas por uma  consciente  crítica  ao  real que o  circunda.  Existe um grito preso em  seus  versos,  se por um  lado, por uma  face,  é  todo roído, vida, sangue, batalha, por  outro,  dentro  do  mesmo  poema,  é  contenção,  freio,  silêncio,  tortura  calada, tempo  sem  emoções. Metade de  suas palavras  são minerais  –  a outra metade um sentimento  abismal de  vida e torrente. Daí a contradição, necessária a toda obra de arte, entre mundo-consciência,  autor-leitor,  real-irreal.

As  fatias do universo pessoal do poeta  estão postas à mesa, nos resta agora degustá-las num verdadeiro festim poético, e utilizamos os mistérios desse  labirinto com o ofício da faca que ele nos entrega.

(Publicado no Diário de Pernambuco)

Murilo Gun

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