06
Seg, Abr

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            Um dos poetas que mais li, o faço desde 1985, foi Jorge Guillén, espanhol. Reuni a obra dele, toda no original, porque não há tradução em português. Estive em Madrid e o objeto maior foi comprar Guillén.

Neruda, Lorca, Borges, Lezama Lima, César Vallejo, Murilo Mendes, Jorge Invenção de Orfeu de Lima, CDA e João Cabral, Perse, Cioran, Séferis, Jorge de Sena, Cernuda, José Gomes Ferreira, Eliot, Pound, Rimbaud, Baudelaire, Valéry, Mallarmé, Montale e alguns mais, como Elithes, poeta grego prêmio Nobel, são poetas a que dediquei a leitura por 30 anos. E afirmo que vital influência deles marca meu poema e não me angustia. Ninguém, em tese, poderia escrever um poema sem conhecê-los.

            Deles, aprendi os poderes libertadores da linguagem... bem como o poder da cura – própria e de terceiros, pela linguagem poética. Alguns casos de grave depressão em intelectuais (que é comum). A leitura de meus livros curaram. Os próximos terão tarja preta e serão vendidos em farmácias.

            É de se consumir a plenitude do Ser na plenitude fiel das palavras. Tal como Guillén dedicou Cântico ao poeta Pedro Salinas. Este livro foi começado em 1919 e concluído em 1950. Mas não pense que só foi publicado em 1950, não; publicado em 1928 e objeto de sete reedições, Cântico sempre teve vários poemas acrescidos, muitos alterados, alguns renegados, de modo que se manteve o título, mas era sempre um livro novo. Já conheci a 5ª edição... e em Veneza adquiri, numa livraria especializada em poetas espanhóis, em 1994, farta crítica sobre JG e um título heroico: um livro crítico com registro de todas as modificações das sete edições de Cântico.

            Com Cântico, Guillén se ombreou com Baudelaire (Flores do mal) e Whitman (Folhas de relva). São três livros que, embora fragmentários e descontínuos, ocultam uma unidade orgânica em progresso constante, um sentido dialético, que determina e ultrapassa o conteúdo, graças a uma coesão interna quase perfeita.

            Conforme escrevi, em coluna que mantive no Diário da Manhã – Recife, quando editei uma página dupla literária aos domingos, que a poesia de Guillén foi uma busca, em que todo o devir do mundo era objeto poético.

            Um retorno ou a mineração da palavra essencial. O propósito de Jorge Guillén é elucidar o real poético e destacá-lo do mundo.

            “Esta vidraça / fiel que me ofereces / transparenta vida / como um ideal”. Eis um poema vital. Guillén despoja atributos transitórios, apara ornamentos retóricos do discurso poético, em seu estágio de pureza verbal.

            Destacam a claridade do canto guilleniano, diria clamor diurno de um universo tornado diáfano, de um poeta maior que se compraz em percorrer territórios de selvagem candura... e influenciou CDA, como exegeta da essência verbal. Em texto de O Monitor, Poesia pura, confrontava a harmonia entre Valery e Guillén, como eleata da modernidade poética do Ser.

            Era o poeta, que, tal como Ramon Jimenez (prêmio Nobel espanhol que conheci com JG), conjugava a vertigem. Anunciavam a morte do rumor branco, o último ruído ou sopro suspenso: a ideia de eternidade. Eis a palavra no limiar do inefável, o poético elemento Éter verbalizado, a expressão da essência. Guillén e Valery nunca temeram, mesmo ao risco de deparar o vazio, de remontar ao curso do visível rio do verbo primo até a fonte “onde cessa até mesmo um nome”. Guillén é o poeta absoluto com quem aprendi a contemplar o esplendor solar do ser e a lunar essência da solidão. Qualquer poeta rende-se de pronto à majestade do longo poema. Más allá, que, desde a segunda edição (título de um livro de VCA), insere-se no limiar de Cântico, como uma overture mágica celestial, música de palavras inauditas, auge literário de uma obra poética etérea e atual.  

 

 

 

Murilo Gun

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