I
Homens fabricam lento crepúsculo
com utensílios de dias turvos.
Sombras vicejam nutridas de treva
locatárias do olho.
Morre luz contorno.
Claridade do ângulo adormece.
II
Catedral dobra séculos
que se ajoelham e lambem
suas lajes silenciosas
fluxo das horas eternas sorvem.
III
Brotam geometrias cegas
das arestas mortas. Vagaroso ângulo
do céu se ajoelha. Fulgores se agacham.
Rumor da catedral lembra fortaleza.
Fera gótica, reza vermelha.
IV
Aves esventradas
ainda nos vitrais gritam
eco do urro ápice galga.
Em volta a noite manicômio escuro
vômito uivante do vento
lábio do beiral depreda
pombas do telhado assusta
(eco de zinco acorda gatos).
Sáurios rastejantes e ágil loba
de tetas atentas bebiam vestígios.
V
Astuciosa e velha catedral se recolhia
a seus metais e unguentos
afagava sulco que filósofos deixaram
em sua carne votiva, ouro
que cardeais esqueceram
em seus vestíbulos curvos
e prece que desesperado no átrio abandonou.
VI
A memória da catedral cripta e pátios espanca.
Sepulta esgar de gozo dos cônegos lascivos.
Cânticos eunucos estertoram entre sais de culpa e pia.
Frágil rosa dos instantes busca raiz das horas
fruto cerrado da vida e emolumentos do tempo vencido.
VII
“E o sedoso
esplendor de sua cúpula
estava embaciado
pelo silêncio
da incipiente noite”.
VIII
Na praça esplendia cesto onde
milênios se recolhiam
guardados por cavalheiros insones.
(Veste de aço fazia que sol invejasse
e dos elmos roubasse lampejos).
Reluzentes cruzes iluminavam o sacrifício.
Do adro da velha catedral infernos supuravam
perante lábio de reis infames.
IX
Dos odres do átrio nadavam poemas embriagados.
A voz da cal estremecia capiteis
flores de mármore tremulavam
do peito de estátuas hagiográficas.
E a nave incessante vociferava
contra náufragos anjos das águas blasfemas embriagados.






