O poema acontece. A imagem brota do nada ao encontro da palavra em jorro breve, largo, lépidos flashes crassos ou puros, mas descontínuos e lassos, adjetivos.
O poema não nasce classicamente, não é a recolha de uma messe de letras, algo que vindo em semente se assemelhe a um fervor agrícola, a um molho de semestres cereal do verbo que plantado e mirja (pão undécimo) sob égide de uma estrutura, vôo de baunilha sob pálio de uma história, esquema hábil em aritmética e música, partida dobrada de emoção diurna como soi ser “poemas despoietizados”.
Acontece, súbito relâmpago, voragem
que escurece o jugo das palavras
presa do dínamo narrativo, catraca do sentido
o poema acontece sob trilhos próprios do tempo
descarrilha antes de sujeitar-se à estação da gramática
nas rédeas insolentes do inútil e da intriga perde abrigo, ganha refúgio, no tugúrio do sintagem desconexo habita, nas minúcias de um espaço passivo inacabado sempre, demoníaco, talvez imóvel (semovente) como um sino antes do primeiro repique.
O poema surge e ressurge e incorpora-se à passagem do tempo como a lava de um vulcão à geografia do olho encarna-se na passagem do fruto como a boca no mundo. emerge dado, acontecido, fato de palavras construído por parcas porfiosas tecido, por gestos irremediáveis alinhavado, Penélope e Penélope, o tecido do inverso vertido fruto da epifania do verbo do projeto da página concebido.
Vêm os poemas do repúdio da suspensão do temos da carne do incomunicável (do comunicável não é preciso) fluem do imanente, mas desprezam talvez o contudo e toda a transcendência do palavroso abominam.
Do frutífero inconsciente, do prolífero critério de imagens suínas (e grupais inclusive) é fruto também.
Adota o infecundo e a intempérie como símbolos e as carnes da prosa para sua fome metafórica.
O poema erguese de um reservatório de escombros de uma legião de dores, de um cesto de torsos arcaicos de uma usina de sombras fecundas e dínamos solares para a claridade da palavra, para o foco da essência, íntima, vasta.
Advém o poema de uma zona cega (ponto morto) perigosamente impura, entranhadamente nua.
Vem a poesia ao poema em fragmentos de mundo (que o obus da palavra deteriora e salva), em forma de olhar de temores, de dias sonâmbulos, de vazios intensos.
A poesia depende do silêncio açulo do poeta que fazer-se em poema arrastar-se até a página, leito ou útero de sua rebentação angélica.
O poema vive às expensas de porfios Ariadne fricativa, fina frágil, sílaba de fonte e mistério, guia e amoroso caminho, indefesa luz, abandonada gema.
Se o poema não tem a aparência do que vem feito sua essência é falsa ou fabricada por máquina de prosa.
O poema é dinamizado por musas atadas (deuses estanques) ao subconsciente do mundo, à inconsciência da coisa que o ilumina, rebusca, rubrica, denuncia ou afoga.
Todo poema é sonâmbulo sob pena de ser narração do nada, doença do sono, dor da vírgilia, artifício da alma.
(Se o poema não passa da página em branco, publique o mundo cerne por ratos urbanos, suicide-se com o alfange da palavra).
Mas nunca diga que o poeta é um fazedor de signos cegos artesão de metáforas encaixotadas em urnas sonoras em diapositivos de música ou um reles fingidor do mundo de que se demite.






